Finanças

Vale a pena investir em empresas estreantes na bolsa?


É preciso conhecer os negócios das empresas, bem como o cenário econômico, antes de apostar nas novatas. Veja as dicas de especialistas


  Por Estadão Conteúdo 13 de Fevereiro de 2017 às 19:09

  | Agência de notícias do Grupo Estado


O ano de 2017 promete por fim à era de secura nas aberturas de capital na Bolsa. 

Duas companhias já fizeram uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) neste ano e, segundo o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, há mais de uma dezena de empresas na fila para registro de novas ofertas.

Para o investidor, ações de novas empresas no mercado representam mais opções para diversificar  a carteira de investimentos. 

Comprar os papéis dessas companhias no momento de estreia no mercado, no entanto, exige estudo cauteloso sobre os negócios dessas empresas e do cenário de economia ainda enfraquecida.

Na semana passada, a locadora de veículos Movida e a rede de laboratórios Hermes Pardini entraram na Bolsa.

Outra locadora de veículos, a Unidas, cancelou sua oferta por não encontrar procura suficiente dos investidores por suas ações, um indicativo de que as condições de mercado ainda são incertas.

Apesar das ofertas já realizadas e daquelas que devem ocorrer, a movimentação deve ser encarada com cautela pelo pequeno investidor.

"A grande dificuldade é levantar o histórico da companhia que está abrindo o capital", diz o analista da corretora Rico, Leandro Martins.

Ele cita o prospecto, um documento que todas as empresas que vão fazer um IPO devem enviar a investidores, como uma importante ferramenta para avaliar, principalmente, os riscos para o negócio das companhias.

É comum que esses documentos sejam extensos, pois trazem informações detalhadas sobre o histórico de uma companhia, seu setor de atuação e como ela pretende investir os recursos captados na oferta de ações.

O prospecto também traz informações sobre o cenário em que a empresa está inserida e todos os riscos e ameaças a que seu negócio está sujeito.

"A corretora não pode dizer o que acha de um IPO, por isso recomenda a leitura do prospecto. No fim, poucas pessoas leem", afirma Alfredo Sequeira Filho, presidente da DNAinvest e agente autônomo de investimentos.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estabeleceu essa proibição para evitar conflito de interesse nas indicações sobre os IPOs.

Mesmo com todas as informações disponíveis no prospecto, o conselho é que o investidor faça uma busca por conta própria.

"Esse é um documento preparado pela companhia que quer vender. Vai falar dos riscos, mas de forma suave. Então é preciso buscar mais informações. Uma delas é se o lucro projetado pela empresa é realista", afirma Flávia Montoro, planejadora financeira da Planejar.

Os motivos que levaram determinada empresa a ingressar na Bolsa também ajudam a projetar o desempenho de suas ações.

Sequeira Filho, da DNAinvest, explica que se a companhia está levantando fundos para comprar outras empresas do setor, investir em novas tecnologias ou melhorar sua produção, o indicativo é de que ela deve crescer.

Um levantamento sobre os últimos dez IPOs feitos antes de 2017 pela provedora de informações financeiras Economatica aponta que seis das empresas que emitiram papéis novos no mercado tiveram desempenho positivo na Bolsa após a oferta.

É o caso de Smiles, BB Seguridade, CVC, PAR Corretora e CPFL Renováveis e Ser Educação. Por outro lado, Via Varejo, Alliar, Anima e Ourofino tiveram perdas.

Para Martins, da Rico, a conclusão é que mesmo o IPO de uma empresa grande ou já conhecida pelo mercado não garante o retorno positivo. Ele pondera que o desempenho da Bovespa vinha no vermelho desde 2013 e só no ano passado houve alguma recuperação, que ainda não se refletiu totalmente no mercado de ações.

A atividade econômica, que deve completar o segundo ano consecutivo em baixa, e a taxa básica de juros em um patamar que ainda é considerado alto são os principais fatores que influenciam nesses resultados.

ALTERNATIVAS

Para quem deseja aproveitar o fôlego do mercado de ações, mas não quer investir diretamente nesses papéis, as opções são fundos de investimento em ações ou multimercado, além de debêntures (títulos corporativos de dívida). Há ainda os fundos que replicam o comportamento de determinados índices de ações, os chamados ETFs (do inglês, Exchange Traded Funds).

Analistas apontam que o cenário atual favorece o desempenho dos multimercado - que dividem a carteira entre ativos de renda fixa e renda variável - porque a economia ainda não deu sinais concretos de recuperação.

No entanto, o sócio da XP Investimentos, Bruno Constantino, destaca: "O risco é maior em multimercado e ações, mas o investimento pode ser interessante caso o perfil do investidor esteja adequado a esse tipo de risco."

As debêntures têm destaque na renda fixa, principalmente as que oferecem isenção de Imposto de Renda. É o caso de títulos de empresas ligadas à infraestrutura.

"Quando falamos de mercado acionário, sempre há especulação e volatilidade. No caso das debêntures, é uma aplicação menos volátil e com rentabilidade atraente", diz Daniel Maranhão, sócio da Grant Thornton.

No entanto, o risco de insolvência da companhia que emitiu o título, e consequente calote no pagamento da aplicação, é o ponto crucial para avaliar o investimento.

Para os menos tolerantes ao risco, Tesouro Direto e aplicações em renda fixa com isenção de IR seguem sendo recomendadas. "Com a queda de juros, quem já possuir essas aplicações terá um retorno interessante", diz Constantino, da XP. 

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