Finanças

O que fazer com suas aplicações na 2ª fase da crise política


Quem precisa realocar o dinheiro de aplicações que estão vencendo deve aguardar e analisar com cautela o cenário, que se tornou conturbado com a delação envolvendo o presidente Temer


  Por Rejane Tamoto 18 de Maio de 2017 às 18:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Em um dia de turbulência no mercado financeiro, após a divulgação da delação que atingiu o presidente Michel Temer, a cautela voltou a ditar as recomendações de especialistas do mercado financeiro. 

Quem tem aplicações vencendo deve aguardar pelo menos até a próxima semana para tomar uma decisão antes de realocar o recurso. Fabio Colombo, administrador de investimentos, diz que o investidor deve evitar ao máximo realizar movimentos bruscos, mesmo se tiver posição na bolsa de valores - que em tese deveria ser a aplicação com objetivo de longo prazo. 

"Para quem tem de tomar decisões recomendo ficar em aplicações de renda fixa pós-fixadas (cujo rendimento é conhecido no vencimento)", afirma. 

Mauro Calil, fundador da Academia do Dinheiro, também recomenda que o investidor seja conservador e fique na renda fixa se precisar tomar uma decisão nesse momento.

"O movimento clássico em dias como esse é de estresse no primeiro dia e de ajuste no segundo. No meio tem o fim de semana para colocar a cabeça no lugar", diz. 

O especialista diz que a aposta de alocação em prefixados perde um pouco de força com a incerteza gerada pela delação que envolve Temer.

Ele recomenda ao investidor ficar atento à decisão sobre os rumos da taxa de juros, que serão definidos em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), daqui a duas semanas.  

"Até ontem o consenso era de um corte de 1,25 ponto percentual na taxa Selic, mas agora duvido que isso aconteça. Se cair 1 ponto será muito. A alta do dólar pode provocar o aumento da inflação, mesmo com a demanda fraca, obrigando o BC a segurar o processo de redução", afirma.

Em conferência com clientes na tarde desta quarta-feira (18/05), Luciano Telo, responsável por estratégia e gestão da XP Advisory, diz que qualquer que seja o cenário para o governo daqui para frente, a aprovação de reformas importantes - a Trabalhista e da Previdência - ficou mais difícil, e abre um cenário de incerteza no mercado financeiro.  

Na renda fixa, ele aconselhou a evitar a aplicação em título prefixado, mesmo com o aumento do valor do cupom (rendimento).

A rentabilidade de título dessa modalidade no Tesouro com vencimento em 2020, por exemplo, subiu de 9,80% para 10,83% de um dia para o outro. "Mesmo assim recomendaria para a pessoa física ficar em pós-fixado e evitar o pré agora porque o movimento de redução da Selic pelo Banco Central, que proporcionaria um ganho maior a quem carrega esse título, pode ser mais lento", afirma. 

A volatilidade (movimento brusco de preço de ativos) foi forte na renda fixa ao longo do dia, atingindo os títulos públicos negociados pelo Tesouro Nacional. 

Pela manhã, o Tesouro Nacional informou que, em razão da volatilidade observada no mercado, não realizaria os leilões de venda de Letras do Tesouro Nacional (LTN), com vencimentos em abril de 2018 e 2019 e em julho de 2020. 

As LTNs são títulos prefixados (rentabilidade determinada no momento da compra) e notícias como essa provocam grandes oscilações de preços. 

Também foram suspensos os leilões de Letras Financeiras do Tesouro Nacional (LFT), com vencimento em março de 2023. Esse título é pós-fixado e paga a variação da taxa básica de juros Selic. 

Professor de Finanças da Fecap, Eduardo Contani diz que a reação dos mercados na quinta-feira (18/05) pode ter sido exagerada. Ele espera que as perdas sejam revertidas nos próximos dias, ainda que os preços não voltem ao patamar anterior.

A recomendação geral é que o investidor que pretende aplicar recursos em algum ativo busque títulos de renda fixa de prazo mais longo ou fundos cuja carteira seja composta por eles.

Alexandre Cabral, professor de finanças da FIA, recomenda o Certificado de Depósito Bancário (CDB), Tesouro Selic (título pós-fixado, cuja rentabilidade segue a variação da taxa de juros básica da economia) e Tesouro IPCA (título que tem a rentabilidade composta por uma taxa predefinida no momento da compra mais a variação da inflação).

"Até R$ 5 mil, o investimento ideal para curto prazo, entre um e dois anos, é o Tesouro Selic. Para o médio prazo, entre cinco e seis anos, é CDB de banco. E para longo prazo, com retirada em 2030, 2040, o ideal é Tesouro IPCA. Quem tem mais de R$ 5 mil, deveria investir em CDB de banco para curto e médio prazo e Tesouro IPCA no longo", afirma o professor.

BOLSA

A teoria diz que é preciso não só cautela para aproveitar oportunidades na renda variável, mas também conhecimento, experiência, planejamento, tempo disponível para operar e - principalmente - sangue frio. 

E esta quinta-feira foi uma amostra do quanto é difícil manter a calma. A bolsa entrou em turbulência desde a abertura do mercado. Mais cedo, as operações foram suspensas por meia hora a partir do mecanismo do circuit breaker, que amortece movimentos bruscos do mercado.  

A paralisação acontece sempre que o Ibovespa (índice que reúne as ações mais negociadas e de maior valor de mercado da bolsa) cai mais do que 10%. Na abertura desta manhã, ele despencou 10,6%. No início da tarde, a bolsa ainda operava em baixa de 9,18%. 

O instrumento acionado nesta quinta-feira (18/05) não era usado desde outubro de 2008. Após o pronunciamento do presidente Michel Temer, às 16h, dizendo que não renunciaria, o Ibovespa continuou caindo em mais de 8% e encerrou o dia com perdas de 8,8%, aos 61.597 pontos. 

Segundo Telo, da XP, as aplicações em bolsa foram as que mais sofreram no dia, mas a recuperação pode ocorrer, de acordo com o cenário que se desenhar.

Ele disse que não acredita que as perdas de 9% persistam nos preços, caso a renúncia ou substituição do governo ocorra de maneira organizada, com um nome de confiabilidade no lugar. "Mas não é o tipo de aplicação para entrar agora. E quem fizer deve ter cautela. Por isso é importante uma carteira diversificada, que reage melhor em dias de mudança completa de cenário, como hoje", diz. 

As ações que mais caíram no dia foram Eletrobras ON (-20,9%), Cemig PN (-20,4%) e Eletrobras PNB (-16,9%). As ações da JBS desvalorizaram 9,68%. O volume de ações negociadas foi R$ 24,5 bilhões.

Hoje foi o primeiro dia de funcionamento do mercado financeiro depois da divulgação das delações premiadas dos empresários Joesley Batista e Wesley Batista, donos do grupo JBS, controlador do frigorífico Friboi. O conteúdo dos depoimentos envolvendo Temer foi antecipado na quarta-feira (17/05) pelo jornal O Globo.

Segundo a reportagem, em encontro gravado em áudio pelo empresário Joesley Batista, Temer teria sugerido que se mantivesse pagamento de mesada ao ex-presidente da Câmara, o ex-deputado Eduardo Cunha, e ao doleiro Lúcio Funaro para que estes ficassem em silêncio. Cunha e Funaro estão presos em Curitiba.

No início desta tarde, Edson Fachin, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu abrir inquérito sobre o presidente Michel Temer. 

DÓLAR

O dólar comercial terminou o dia em forte alta, cotado em R$ 3,38 na venda, uma alta de 7,9% em relação ao preço de do dia anterior (17/05). Telo avalia que, apesar da alta, é preciso avaliar os desdobramentos do governo Trump para saber até que ponto a moeda pode subir. Por isso, também disse que o ideal é aguardar para tomar posição em câmbio, sendo melhor manter-se na renda fixa, em pós-fixado.

Em nota, o Banco Central disse que está atuando para manter a funcionalidade do mercado. “O Banco Central está monitorando o impacto das informações recentemente divulgadas pela imprensa e atuará para manter a plena funcionalidade dos mercados. Esse monitoramento e atuação têm foco no bom funcionamento dos mercados. Não há relação direta e mecânica com a política monetária, que continuará focada nos seus objetivos tradicionais”.

O Banco Central (BC) fez hoje quatro leilões de swap cambial tradicional, o que equivale à venda de dólares no mercado futuro e ajuda a segurar a alta ou forçar uma queda da moeda. Tanto o BC quanto o Tesouro Nacional divulgaram notas pela manhã afirmando que estavam monitorando os mercados.

Criado em 2001, o swap cambial é uma ferramenta que permite ao Banco Central intervir no câmbio sem comprometer as reservas internacionais. 

O BC vende contratos de troca de rendimento no mercado futuro. Apesar de serem em reais, as operações são atreladas à variação do dólar.

O objetivo dessas operações é oferecer proteção cambial para as empresas em momentos de forte oscilação da cotação e liquidez (recursos disponíveis) no mercado. 

FOTO: Thinkstock

*Com informações de Agência Brasil e Estadão Conteúdo