São Paulo, 24 de Maio de 2017

/ Finanças

Não lute sozinho contra a recessão
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Busque trocar experiências para fazer um bom diagnóstico da situação financeira e ajustar a visão que tem de seu próprio negócio, recomenda Mauro Johashi (foto), sócio da BDO

Faz parte da natureza empreendedora acreditar que o negócio vai prosperar e que as dificuldades serão superadas, não importa quantos tombos se leve.

Mas esse espírito desbravador -tão característico de empresários - foi ferido em uma recessão que atingiu negócios de importantes setores da economia, como o de construção civil, automotivo, infraestrutura e varejo.

Diante da insegurança, o melhor a fazer no momento em que a economia para de piorar, é deixar a solidão das decisões e trocar experiências com outros profissionais.

Quem recomenda é Mauro Johashi, sócio da consultoria e auditoria BDO, especializada no segmento de médias empresas (middle-market). 

Também engenheiro com experiência em finanças corporativas, Johashi observa o comportamento de empresários de negócios familiares há mais de uma década e constata a importância de buscar o networking e conhecimento. 

"A maioria dos empresários se sente sozinho e em momentos como esse. Por isso, é importante que ouçam opiniões diferentes ou mesmo conclusões que possam ou não reforçar sua visão - mas que podem render um insight do que ele deveria fazer na própria empresa para melhorar a eficiência e a performance. É fundamental que ele saiba que não foi só ele que errou", afirma.

Johashi participará do módulo Finanças e Investimentos, programado para 27 de outubro, do Fórum Empreendedor Vencendo a Crise, promovido pela Associação Comercial de São Paulo. As inscrições estão abertas.

O especialista diz que é importante que o empresário faça um diagnóstico correto caso esteja enfrentando dificuldades financeiras desencadeadas durante a recessão. Para cada caso, há uma saída e até uma oportunidade. A seguir, ele discorre sobre as principais medidas. 

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REESTRUTURAÇÃO OU RECUPERAÇÃO?

Johashi diz que mesmo empresas bem preparadas financeiramente para enfrentar dificuldades foram pegas nessa recessão, sejam elas da indústria, comércio ou serviços. Por isso, muitas estão tendo de recorrer à reestruturação financeira ou à recuperação judicial, explica.

O sócio da BDO explica que o que leva à primeira ou segunda alternativa é a situação do negócio e o perfil do empresário. 

Quando o empreendedor percebe rapidamente que as finanças estão se deteriorando, pode ter condições de buscar a renegociação nos prazos de pagamento com fornecedores, bancos e o parcelamento de impostos, evitando dessa forma que as dívidas cresçam exponencialmente. 

Em outras palavras, antes que o endividamento extrapole o faturamento, pode optar pela reestruturação financeira. “Há empresários que conseguem perceber o sinal amarelo com antecedência e buscam consultores financeiros para verificar a melhor solução”, diz.

Mas quando esse sinal ficou vermelho, a recuperação judicial acaba sendo a única saída. Segundo dados da Boa Vista SCPC, os pedidos de recuperação judicial cresceram 70,4% no acumulado deste ano até agosto na comparação com igual período do ano anterior. 

De acordo com Johashi, o pedido de recuperação judicial muitas vezes ocorre depois da tentativa de realizar uma reestruturação financeira. “É o caso de quem tem um negócio rentável, mas no qual as dívidas com fornecedores, bancos e de impostos excedem o faturamento."

Dependendo do grau dessa situação, a recuperação judicial poderá ajudar a manter a atividade do negócio e a preservar empregos.

Ele afirma que a recessão mudou bastante a forma como empresas e bancos lidam com ambas as situações, tanto com a reestruturação financeira quanto com a recuperação judicial. 

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“Os bancos estão aceitando negociar porque está ruim para todo mundo. O fornecedor quer continuar vendendo para a empresa em recuperação porque é um ciclo que não afeta apenas um segmento e sim muitos. E não só pequenas empresas, mas players de mercado. Por isso houve uma flexibilização. O banco segue o mesmo raciocínio, porque o que interessa é receber dos clientes”, afirma.

A recuperação judicial ficou conhecida como um jeito de fácil de sair da crise nos últimos tempos, e disso ele discorda.

“Isso não é verdade porque hoje notamos que o objetivo é contribuir com cada credor que está nesse processo, deixando todos pouco satisfeitos. Fornecedores e bancos tem compreendido que o objetivo é manter o negócio ativo."

LIÇÃO DE CASA: TRANSPARÊNCIA CONTÁBIL

Para o consultor, a grande lição de casa que fica dessa crise é a importância da transparência contábil para o empresário. Segundo ele, essa é uma dificuldade comum e muitos não sabem lidar bem com isso.

A contabilidade fornece uma visão real da situação da empresa para que o empresário tome as decisões corretas do que precisa fazer. 

“Por mais que acredite que o produto ou negócio é rentável, existe uma relação entre rentabilidade, custo e despesa para girar o negócio. É preciso ter uma boa fotografia de como é a demanda do negócio para saber qual o nível de despesa que se pode ter”, afirma.

Por isso é importante manter balanços contábeis bem organizados e com dados transparentes. Johashi diz que os empresários que buscam melhorar a governança corporativa podem até ter um negócio que opera no vermelho, mas podem encontrar investidores interessados por causa dos números confiáveis que apresenta.

“Deve haver muitas empresas do setor automotivo dando resultados negativos devido à queda nas vendas, mas quem conhece esse mercado e sabe que faz parte de um ciclo, investe, desde que o empresário tenha números transparentes e boa governança. Porque a empresa dele tem um potencial grande de faturamento no futuro”, diz. 

OPORTUNIDADE PARA QUEM TEM BOA GOVERNANÇA

Johashi tem notado um aumento de apetite de investidores por compra de participação em empresas, de fundos de private equity nacionais e estrangeiros. Para esses investidores, que aplicam pensando em um retorno daqui a quatro ou cinco anos, a crise trouxe oportunidades interessantes, com ativos baratos se considerarmos que o dólar no patamar de R$ 3,30.

“É positivo para as empresas que atuaram de forma preventiva na época das pingas e conseguiram passar bem na hora dos tombos. Para o investidor é uma oportunidade porque o Brasil, com tudo que está ocorrendo, ainda está entre as dez principais economias do mundo“, diz.

Ele avalia que o país gastou o que não podia -mas a economia passa por um processo de mudança, que já começou a refletir na reversão das expectativas negativas. 

“Eu ouvia colegas pensando em mandar o filho trabalhar fora do país e que mudaram de ideia. É importante lembrar que o pais está fazendo a lição de casa na área dos gastos e o fato de a confiança estar melhor é um bom sinal. Significa que empresários e investidores começam a pensar em fazer alguma coisa”, diz. 

FOTO: Rejane Tamoto



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