Finanças

Investidores individuais precisam de mais proteção do que pensam ao lidar com as finanças


O Nobel de Economia, Daniel Kahneman (foto), explica quais são os comportamentos que induzem ao erro quando o assunto é o nosso dinheiro


  Por Rejane Tamoto 28 de Agosto de 2017 às 13:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Aplicar bem os recursos, evitando perdas e obtendo bons rendimentos, é o desejo de todo investidor individual, não importa se iniciante ou experiente, se com um patrimônio de maior ou menor monta.

Ele pode estudar finanças para escolher as aplicações e entender os jargões, mas ainda assim não poderá escapar de tomar uma decisão que o conduza ao erro e, consequentemente, à perda.

Como isso é possível? A tomada de decisões financeiras leva em consideração intuição, memórias, impressões, percepções e emoções – aspectos subjetivos -que fazem com que os investidores individuais, mesmo os experientes, apresentem a tendência de perder na maioria das vezes. 

Quem explica é Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia em 2002 -teórico das finanças comportamentais, ciência que pouco a pouco conquistou respeito no mercado financeiro.

Sua mais importante obra neste sentido é o livro Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar -, na qual detalha as pesquisas desenvolvidas ao lado de Amos Tversky, pioneiro no estudo da ciência cognitiva.

Não à toa Kahneman foi um dos palestrantes mais aguardados no primeiro dia do Congresso da B3 – Brasil, Bolsa, Balcão – realizado na sexta-feira (25/08) em Campos do Jordão.

Para ele, o investidor individual precisa de mais proteção do que imagina quando o assunto são as próprias finanças. 

Essa é uma questão que passa ao largo da teoria da racionalidade econômica, ao pressupor que somos racionais e, que apenas por isso, também somos capazes de tomar decisões acertadas sempre.

“Somos racionais, mas podemos cometer erros gravíssimos por influência do comportamento. Na área de finanças, as pessoas precisam de proteção", afirma Kahneman.

"É uma questão moral e filosófica. Ainda há contratos financeiros e de hipotecas com cláusulas predatórias, impossíveis de serem compreendidas. As grandes instituições financeiras têm meios de evitar perdas. O investidor individual não.”

Em diversos momentos, durante a palestra e em conversa com jornalistas, o Nobel de Economia lembrou da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que levou à bancarrota de milhares de famílias, e eclodiu na crise financeira do país em 2008.

Kahneman foi duro com o trabalho da imprensa ao afirmar que há nela há um conflito de interesses. “Os investidores individuais respondem a dicas e notícias da mídia sem saber o que estão fazendo e isso explica porque eles perdem e as instituições financeiras ganham.”

A educação financeira é uma grande aliada para que as pessoas lidem melhor com o próprio dinheiro, mas isso não é suficiente.

O que ganha destaque mesmo na diminuição das perdas e até do sofrimento psicológico de investidores individuais, conforme Kahneman, é o trabalho do consultor e assessor financeiro –que, ao contrário do que possa parecer, não deve ser procurado apenas para ajudar na escolha de investimentos específicos.

“Nisso eles não são melhores do que os investidores individuais. Eles são mais importantes como terapeutas e coachs, ao ajudar as pessoas a não mudar tanto de ideia e a mexer na política de investimentos no tempo certo”, afirma.

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1- OS DOIS LADOS DO EXCESSO DE CONFIANÇA

E para falar a uma plateia do mercado financeiro, Kahneman escolheu começar por um comportamento humano muito comum, e que guarda duas facetas: o excesso de confiança.

Quem é superconfiante acha que sabe demais. E é aí que mora o perigo: estudos feitos em corretoras de valores nos Estados Unidos mostram que investidores individuais perdem, na maioria das vezes, ao realizar transações excessivas de compra e venda de ações.

Eles gastam mais em tarifas de negociação e são mais propensos a vender o papel a um preço menor e de comprar a ação a um preço maior. 

Talvez por isso, segundo o Nobel, as mulheres se saem melhor do que os homens na hora de investir. 

“Estudos mostram que elas fazem menos, não têm tantas más ideias, tem menos confiança sobre o que sabem a respeito de finanças. E isso é bom. Quem tem confiança excessiva se arrisca demais e mal”, explica.

Mas a confiança excessiva nem sempre faz mal para todos os lados. O otimismo faz com que a economia ande, embora os reflexos não sejam sempre positivos para os indivíduos confiantes.

Na crise hipotecária, por exemplo, os americanos tomavam dinheiro emprestado sem saber como pagariam, já que alguém disse que os preços dos imóveis subiriam para sempre. “Alguém se aproveitou desses indivíduos.”

Outro exemplo da importância e dos riscos da superconfiança ocorre com empresários. Nos Estados Unidos, cerca de dois terços dos pequenos negócios que são abertos fracassam em um intervalo de cinco anos.

Kahneman diz que, mesmo assim, 80% a 90% dos empresários abrem o negócio acreditando que terão êxito e isso é interessante do ponto de vista psicológico.

“As pessoas julgam-se diferentes das demais e acham que podem fazer coisas que os outros não podem porque não têm ideia das probabilidades. Esse é o motor do capitalismo, mas na média não é bom para todos os empresários”.

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O fato é que não há como fugir do excesso de confiança, pois ela está intrincada nas relações sociais. Vivemos em um mundo no qual não sabemos o que vai acontecer, mas sempre tentamos usar as possibilidades de uma coisa ou outra ocorrer, como se fosse um jogo.  

O que os pesquisadores mostraram é que ao fazer esse exercício não temos dúvidas suficientes. Confiamos demais nas próprias crenças e efeitos, sobre as possibilidades e qual a probabilidade de uma proposta ser verdadeira.

Isso se aplica aos profissionais de finanças, mas também aos dirigentes de grandes empresas. Kahneman cita uma pesquisa realizada com CEOs pela Fortune 500, na qual a pergunta é sobre a previsão deles para o índice Dow Jones, para onde acreditam que deve ir, com 80% de intervalo de confiança.

“Eles não têm ideia nenhuma sobre para onde o mercado vai. Um CEO está sempre sob pressão para exercer a superconfiança, para parecer competente e profissional. A sociedade recompensa quem diz que sabe tudo. Não gostamos de pessoas com cabeça duvidosa. O banqueiro deve sempre estar seguro sobre o que está dizendo”.

Isso também ocorre em processos de aquisição de empresas. Segundo Kahneman, muitas transações são movidas a testosterona e excesso de confiança (ele diz que há uma relação estreita entre ambos, movida pelo sentimento de competitividade).

“Geralmente os executivos da companhia que compra acham que estão em vantagem porque a empresa é mal administrada e está no mercado a um preço baixo. Em média, não há bom êxito em negociações feitas dessa forma.”

2- A MEMÓRIA DA PERDA É SEMPRE A QUE FICA

Uma das teorias que Kahneman mencionou em sua apresentação, conhecida como a do prospecto, mostra como a memória da perda é muito pior do que a do ganho.

Segundo a teoria, quando precisam tomar uma decisão financeira, as pessoas não pensam em ficar ricas, mas quanto ganharão ou perderão.

E o mais interessante: quando pensam sobre isso, não o fazem de forma simétrica, já que geralmente as perdas são sempre mais significativas do que os ganhos.

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Um exemplo: numa aposta de cara ou coroa, parece interessante escolher entre ganhar R$ 1000 se a moeda for cara ou perder R$ 500 se for coroa.

Se o valor do ganho fosse igual ao da perda, a pessoa não toparia se arriscar. E isso acontece porque uma perda machuca muito mais.

Na vida prática, Kahneman diz que a aversão a perdas faz com que muitas pessoas comprem seguros ou mesmo aplicações ruins.

 3- QUANDO O PROBLEMA É FICAR ONDE ESTÁ

Outra tendência comum do comportamento humano, segundo Kahneman, é a de ficar onde está, mesmo que algo não vá bem com o dinheiro.

O comportamento do preguiçoso tem o nome de status quo, que seria caracterizado pelo fato de vermos mais desvantagens do que vantagens na hora de fazer uma mudança.

“É como se um dos gêmeos idênticos morasse em São Francisco e o outro em Nova York e não conseguisse trocar de cidade pelo simples fato de estar acostumado a viver nela”.

Outro exemplo prático do status quo é o sentimento que temos quando vamos vender um objeto pessoal – um carro, por exemplo. Dependendo de como evolui a negociação, pode ficar uma sensação de que houve uma perda para quem vende.

É diferente da pessoa estar numa loja. Tanto vendedor quanto comprador não têm essa sensação de perdas diante do mesmo tipo de transação comercial.

4- NOSSO HORIZONTE É LIMITADO

Outro exemplo de comportamento é o que Kahneman chama de efeito de framing – ou de horizonte limitado. A partir dessa teoria fazemos escolhas de acordo com o formato de um determinado problema (ou de como é desenhado).

É uma espécie de visão estreita, que acomete investidores que vendem ações ganhadoras e ficam com as perdedoras na carteira.

“A pessoa não pensa no futuro, apenas naquela ação individualmente. Não tem visão global da situação. Esse estreitamento de pensamento é prejudicial.”

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 FOTO: Rejane Tamoto/Diário do Comércio