São Paulo, 02 de Dezembro de 2016

/ Finanças

Grandes empresas terão de recorrer ao mercado de capitais
Imprimir

As companhias de maior porte só terão a menor taxa de juros no BNDES se emitirem títulos de dívida. Esse estímulo pode ajudar as pequenas a ganhar espaço nos empréstimos do banco

Lugar de empresa grande buscar dinheiro não é só no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mas também junto a grandes investidores no mercado de capitais. 

Este é o recado que veio junto com a divulgação de regras, nesta sexta-feira (05/06), para que as empresas de maior porte consigam pagar a menor taxa de juros ao financiarem seus projetos no banco de fomento. 

O anúncio foi feito na sede da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), e teve a presença de Denise Pavarina, presidente da entidade, de Joaquim Levy, ministro da Fazenda, de Luciano Coutinho, presidente do BNDES e de Julio Raimundo, diretor do BNDES. 

Em linhas gerais, a empresa que tiver um projeto e buscar parte dos recursos para a execução dele no mercado de capitais conseguirá pagar 2% menos ao banco do que se buscasse apenas no BNDES todo o montante para o investimento. 

Para as companhias que diversificarem a busca de recursos, o benefício oferecido é a possibilidade de utilizar maior na maior proporção da dívida a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo, que está em 6% ao ano). 

Para isso, a empresa com receita anual de mais de R$ 1 bilhão terá de emitir debêntures, que são títulos de dívida privada repassados a investidores de longo prazo, tais como gestoras de fundos de investimentos, fundos de pensão e investidores estrangeiros.

O prazo do título - que é quando o dinheiro retorna ao investidor - deverá ser maior do que 48 meses (ou quatro anos). 

Outra alternativa é que a empresa emita FIDCs (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios), CRIs (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), que basicamente tem como alvo o mesmo perfil de investidor.  

Para obter a vantagem de uma taxa de juros menor, a empresa deve precisar de, no mínimo, R$ 200 milhões do BNDES e emitir títulos privados de dívida (debêntures) de pelo menos R$ 50 milhões. Não há limite máximo. 

Para se ter uma ideia, a empresa que lançar debêntures conseguirá pagar a TJLP, ou 6%, sobre 50% da dívida que tem com o BNDES.

A companhia que não fizer isso, pagará a menor taxa de juros apenas sobre 25% do valor da dívida. Sobre os 75% restantes serão aplicadas as taxas de mercado do banco, que correspondem à Selic ou à inflação. 

Estão contempladas nas regras as companhias dos setores de agropecuária, agroindústria, indústria extrativa e de transformação, petróleo e gás, comércio e serviços e infraestrutura - inclusive sobre os originados em leilões de concessão.

Levy e Coutinho não falaram sobre as novas regras desses leilões, que serão divulgadas na próxima semana. 

 

 

No anúncio não foi detalhado o fundo garantidor para as debêntures, que está em formatação, e tem objetivo de ser um seguro para o investidor caso a empresa que emitiu o título de dívida tenha problemas para pagá-lo.

O principal risco de quem investe nas debêntures é deixar de receber da empresa para a qual emprestou - fato que ocorreu com empresas do setor de construção por causa da Operação Lava-Jato. 

Coutinho diz que o banco está pronto para receber as empresas interessadas a partir de segunda-feira (8/06). Ele diz que prospectou 18 operações em análise, que correspondem ao volume de R$ 3 bilhões em emissão de debêntures.

"É uma estimativa conservadora. Pode ser mais do que isso no terceiro e no quarto trimestres", completou. 

"A expectativa é que o volume de recursos seja maior. O próprio BNDES pode ajudar as empresas com as operações", diz Pavarina, da Anbima.

ESPAÇO PARA AS PEQUENAS

Coutinho disse que, no futuro, pode avaliar alternativas para o acesso de pequenas empresas a esta mesma forma de captação. Por enquanto, Levy avalia que as mudanças anunciadas abrem espaço e a capacidade do BNDES de apoiar outros segmentos, como as pequenas e médias empresas.

O raciocínio do ministro é que a expansão do mercado de capitais, consequentemente, expande as oportunidades para as pequenas empresas, permitindo o BNDES a focar nessas empresas e abrir portas para elas terem acesso a esse mercado.

o presidente do BNDES citou como exemplo os fundos de capital semente Criatec 1, 2 e 3, que financiam projetos de empresas em estágio inicial que são inovadoras e das áreas de tecnologia, biotecnologia e saúde, por exemplo. Coutinho disse que os investimentos desses fundos totalizaram R$ 800 milhões para as pequenas empresas. 

"Vamos levar essas empresas a abrir capital na bolsa. No ano passado, oito empresas se listaram no Bovespa Mais, depois da série de facilidades que implantamos em conjunto para a abertura de capital das pequenas. Das oito, sete foram induzidas pelo BNDES", diz. 

REDUÇÃO DE DEPENDÊNCIA

Na prática, a medida quer diminuir a dependência das empresas, principalmente as grandes, aos empréstimos do banco. Elas teriam, por exemplo, fôlego para pagar pela operação de emissão de debênture, que é estruturada por banco de investimento e, com isso, tem custos.

"Estamos dando mais apoio para a oferta do que para a demanda. Estimular o crédito de menor custo não deu certo. É preciso criar outro ambiente para a economia, com uma estrada segura e rápida , com competitividade", diz Levy. 

Uma das justificativas de Levy é que o país deve deixar para trás o jeito de pensar o financiamento de longo prazo da década de 1960, quando a economia não era estável, e também ao modelo que veio junto com o Plano Real - que correspondeu ao adotado até o ano passado, com o banco de fomento emprestando a uma taxa de juro negativa sem exigir das empresas a iniciativa de buscar outras fontes de recursos. 

A leitura do ministro, de Coutinho e Pavarina é a de que é necessário que o mercado amadureça no Brasil - ou seja, que os financiamentos de longo prazo por meio do mercado de capitais possam se desenvolver em uma economia que é estável há algum tempo.

Mesmo com os tropeços e a situação atual. "Os problemas fiscais estão sendo enfrentados e hoje já há demanda por investimentos de longo prazo da parte de fundos de pensão, de investimentos, de estrangeiros e até mesmo de investidores individuais", afirma. 

O ministro disse que esse é um processo no qual o país tem de garantir a estabilidade macroeconômica e nessa tarefa tem papel principal o ajuste fiscal - no qual se tenta mudar primeiro o descompasso entre despesas obrigatórias com as de governo e receitas, para depois tornar a política monetária mais forte. 

Um dos aspectos que se ressalta nesse processo é a necessidade de o país ter poupança mais forte, o que deve vir com medidas fiscais que aumentem a poupança do governo. Levy também disse que o estímulo às debêntures será benéfica para os poupadores do Brasil e do exterior.

"Podemos avançar para financiar o setor privado, de infraestrutura e industrial. É assim que vamos conseguir dinamizar a economia", afirma.



Expectativa do banco, com esse novo veículo de financiamento, é favorecer a criação de um mercado de títulos verdes no país

comentários

Recuperação somente será efetiva mediante o ajuste das contas públicas e continuidade da redução da taxa de juros pelo Banco Central

comentários

Para Murilo Ferreira, presidente da Vale, além de ter de resolver suas próprias questões internas, país pode sofrer mais com as consequências da globalização

comentários