Finanças

Cartão de crédito corporativo: o melhor amigo ou o pior inimigo do pequeno comércio


Modalidade pode apoiar lojista na gestão do fluxo de caixa, mas deve ser evitada como meio de financiamento, já que pode apresentar taxas de juros quase tão altas quanto as observadas para pessoas físicas


  Por Vitor França 28 de Setembro de 2017 às 08:00

  | Economista, é professor universitário e consultor da Boanerges & Cia., especializada em varejo financeiro


A boa gestão do fluxo de caixa é determinante para o sucesso de um pequeno empreendimento comercial.

Afinal, o descasamento entre os pagamentos a fornecedores e o recebimento pelas vendas realizadas no cartão de crédito, por exemplo, pode gerar despesas elevadas com juros e dificuldades financeiras para o estabelecimento.

Ao realizar uma venda no cartão de crédito, o lojista recebe o valor somente após 30 dias. Se a venda for realizada na modalidade parcelado lojista –parcelamento sem juros –, ele receberá o valor da venda também em parcelas mensais.

Um importante aliado do lojista na gestão do fluxo de caixa pode ser o cartão de crédito corporativo – voltado especificamente para as pessoas jurídicas.

Afinal, se o lojista recebe o valor das vendas apenas após 30 dias, ao pagar os fornecedores com cartão de crédito ele também ganha prazo de pagamento, uma vez que a liquidação das compras será efetivada somente no vencimento da fatura.

Além disso, o cartão de crédito corporativo também permite o parcelamento das compras e uma melhor administração das despesas, já que todas as transações são registradas eletronicamente.

Não é à toa, portanto, que, enquanto a economia crescia, a modalidade expandia-se a um ritmo superior à média das demais modalidades de cartão de crédito. 

 

Entre 2008 e 2014, o número de cartões de crédito corporativos ativos – que realizaram ao menos uma transação em 12 meses – quase quadruplicou, passando de 1,2 milhão para mais de 4 milhões.

 O faturamento, por sua vez, saltou de R$ 21 bilhões para R$ 54 bilhões por ano no período, um crescimento anual médio de 17,3% – contra 11,1% dos cartões de crédito para pessoas físicas.

A modalidade, no entanto, foi uma das mais afetadas pela crise e perdeu R$ 10 bi de faturamento anual na comparação com 2014. Isto porque, ao cortar despesas para fazer frente à retração das receitas, as empresas reduziram, consequentemente, seus gastos nos cartões de crédito corporativos.

Contudo, não somente caiu o faturamento, como o cartão corporativo, que, conforme já dito, pode auxiliar as empresas no controle das despesas e na gestão do fluxo de caixa, passou a ser utilizado com meio de financiamento.

A partir deste momento, a modalidade, que pode ser a melhor amiga do lojista ao alongar os prazos de pagamento a fornecedores, torna-se sua pior inimiga, uma vez que cobra juros quase tão altos quanto os registrados para pessoas físicas.

Entre 2014 e 2016, o saldo das operações de crédito rotativo dos cartões corporativos cresceu 14,6%, enquanto nas operações sem juros (à vista e parcelado) o saldo caiu 5%, acompanhando a queda do faturamento.

Recorrer ao financiamento do rotativo pode ter sido o último recurso de muitas empresas diante da queda das vendas e da dificuldade de obter empréstimos a juros mais baixos.

A mistura das contas pessoais com as contas da empresa, muito comum em pequenos comércios, também pode estar por trás da mudança do perfil da carteira de crédito durante a crise.

 

Os juros altos do rotativo, somados à conjuntura econômica adversa, parecem ter agravado ainda mais a situação financeira dessas empresas, uma vez que a inadimplência da modalidade subiu entre 2014 e 2016 e ainda segue elevada, acima de 16%. 

Passado o pior momento da crise, porém, já vemos sinais cada vez mais consistentes de retomada das vendas do comércio.

Mudanças estruturais no mercado de trabalho também devem incentivar a expansão dos empreendimentos comerciais nos próximos anos.

Os benefícios dos cartões corporativos devem ser avaliados e aproveitados pelos pequenos comerciantes neste novo ciclo de crescimento das vendas e dos investimentos.

 

A modalidade, contudo, deve ser evitada como meio de financiamento de curto prazo.

 Linhas de capital de giro e antecipação de recebíveis, neste caso, são preferíveis, já que apresentam taxas de juros muito menores.