São Paulo, 26 de Abril de 2017

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As contas do cartão e do cheque estão no vermelho? Volte para o azul
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Os limites de crédito pré-aprovados mais usados para facilitar a vida financeira em tempos difíceis são também os principais responsáveis pelo endividamento dos empreendedores

Com menor fluxo de clientes nas lojas, consumo contido e preços em alta, é cada vez mais desafiador para o empreendedor conciliar a entrada e saída de recursos do caixa do negócio e - muitas vezes da própria conta corrente pessoal - para manter a vida financeira em ordem. 

Diante das dificuldades em obter empréstimos de linhas de crédito a juros mais baixos nos bancos - seja para a compra de equipamentos ou o próprio capital de giro - 80% dos pequenos empresários afirmam dar preferência à utilização do cartão de crédito e do limite do cheque especial, de acordo com uma pesquisa recente do Sebrae-SP.

 De acordo com a entidade, cada cliente solicita em média R$ 62 mil.

Se por um lado o uso do cartão de crédito pode ser um aliado, ao permitir um controle detalhado das despesas, por meio das descrições da fatura, pode se tornar um problema se o empreendedor não quitar o valor integral mensalmente e lançar mão do pagamento mínimo - o chamado rotativo.

O pequeno empresário que efetua pagamentos no crédito rotativo e deixa o cheque especial estourado - com frequência - sofre de falta de planejamento, que é agravado pelos juros altíssimos cobrados nessas linhas pelos bancos. 

Um levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que seis de cada dez brasileiros não sabem quanto devem. Entre os entrevistados, 96% desconhecem as taxas de juros cobradas mensalmente, e 93% admitem que estão sob o risco de gastar mais do que podem.

Com o cenário econômico desfavorável para os empreendedores de todos os segmentos e setores, muitas vezes, eles não têm outra saída que não seja recorrer ao cartão de crédito e ao cheque especial.

Longe de ser um vilão, o cartão de crédito pode ser um aliado para quem sabe usá-lo como um meio de pagamento, afirma Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação de Educadores Financeiros). 
 
Veja algumas estratégias para aproveitar as vantagens de cada um desses meios de pagamento, e não se tornar um eterno refém das dívidas.

1 - USE BEM O CARTÃO DE CRÉDITO

Sair usando o cartão de crédito em excesso sob o argumento de que irá ganhar milhas pode ser uma cilada. 

Ricardo Schwalfemberg, planejador financeiro CFP da Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, alerta que esse benefício deve ser usado como consequência e não como causa. 

O meio de pagamento também é uma boa alternativa para centralizar compras, registrar todos os gastos e identificar vazamentos no orçamento. Além disso, já não há mais desculpas para levar sustos com a fatura do cartão. 

No caso dos pequenos empresários, utilizar a fatura para concentrar o fluxo de caixa pode ser uma boa saída, explica o planejador financeiro.  

2 - NÃO CAIA NA ARMADILHA DOS JUROS

Antes de tudo é preciso entender que toda vantagem oferecida por qualquer fonte de crédito tem um preço. 

Utilizar o cartão de crédito para pagar as contas de consumo, por exemplo, pode ser um mau negócio quando se está endividado demais. 

Antes de se decidir pelo uso do limite para pagar contas como as de telefone, água e luz, deve-se levar em consideração duas condições: o valor da fatura e a garantia de que conseguir efetuar o pagamento no vencimento. 

Imagine um cliente que tenha, por exemplo, uma conta a vencer no dia 20 e seu cartão tenha vencimento no dia 10 do mês seguinte. Ele pagará uma taxa de juros específica durante esse intervalo de tempo.

Domingos explica que há dois tipos de pessoas que pagam contas de consumo com o limite do cartão de crédito.

Aqueles que estão extremamente endividados e os que querem acumular pontos em programas de fidelidade. Em ambos os casos não é recomendável pagar água, luz e telefone com o limite do cartão, segundo Domingos. 

“As pessoas têm de entender que a má utilização do cartão de crédito pode levar ao endividamento”, diz.

Ou seja, o cartão de crédito só deve ser usado se as demais alternativas para efetuar o pagamento de contas básicas tiverem se esgotado.

Quando o caso é mais crítico e os empreendedores recorrem ao cartão porque não têm dinheiro para pagar as contas, o melhor é evitar entrar no rotativo, e optar por uma linha de crédito de menor custo, como por exemplo um empréstimo pessoal, e até mesmo postergar o pagamento das contas.  

Em alguns casos, os juros do cartão são mais altos do que a multa pelo atraso no pagamento das contas. No entanto, Schwalfemberg destaca que é preciso ficar atento ao prazo de interrupção de alguns serviços pela falta de pagamento.

"Quando a taxa da multa é menor que 10% e o prazo de atraso não ultrapassa 30 dias, essa opção é válida. Mas, muita atenção ao fornecimento dos serviços vitais para o funcionamento de cada negócio". 

Além disso, o educador financeiro alerta que é preciso fazer um planejamento financeiro, e renegociar planos de telefonia, internet e TV. Se for o caso, é melhor até vender bens, como o carro, por exemplo.  

3- CUIDADO COM AS NOVAS REGRAS DO ROTATIVO

A restrição ao uso do crédito rotativo para financiar dívidas do cartão do crédito, que entra em vigor em abril, pode representar uma economia de quase 12% para quem já está endividado nessa linha.

Na prática, o crédito rotativo do cartão só poderá ser usado até o vencimento da fatura seguinte. Ou seja, por 30 dias. 

Com as novas regras estabelecidas pelo Banco Central, após esse prazo, cabe ao cliente pagar toda a dívida ou obter empréstimo em uma nova linha para financiá-la a juros menores. 

A medida do governo reduzirá os juros cobrados do consumidor, que hoje estão em 484,6% ao ano, segundo dados de dezembro.

“As taxas devem ser reduzidas pela metade, mas continuam muito altas”, diz Domingos. 

Por isso, o especialista alerta que a medida não é sinal verde para usar o cartão sem planejamento. Além disso, a mudança não deve ser entendida como um incentivo a pagar apenas o mínimo da fatura do cartão de crédito. “Isso nunca deve ser feito”.

4- NÃO SABE POR ONDE COMEÇAR? PROCURE AJUDA DE UM CONSULTOR

Ter um negócio próprio envolve muitos elementos. Na maioria das vezes, os empresários possuem habilidades técnicas específicas a respeito da área de atuação da empresa, mas desconhecem processos de gestão e de administração do negócio. Por isso, dependendo do quão complexo está a situação financeira de um pequeno negócio, é preciso buscar a ajuda de consultores e especialistas.

Um levantamento feito pelo Banco Central em parceria com o Sebrae revelou que a tomada de recursos, de forma geral, pelas micro e pequenas empresas cresceu 35% de janeiro de 2012 a agosto de 2016.

No mesmo período, a proporção de pequenos negócios com operações de crédito pulou de 29% para 39%.

No entanto, poucos empresários tiveram acesso a linhas de crédito de menor custo e, por isso, muitas vezes, o cartão de crédito tornou-se necessário para o pequeno empresário. 

Ricardo Assaf, presidente da ABSCM (Associação Brasileira das Sociedades de Microcrédito), explica que pensar no curto, médio e longo prazos, definir metas, avaliar as alternativas possíveis, monitorar resultados e rever procedimentos são tarefas que impactam diretamente o sucesso de um pequeno negócio.

“Um dos fatores primordiais que pode decretar a falência de uma empresa é não saber controlar o próprio fluxo de caixa, ou seja, desconhecer as contas a pagar e o crédito a receber, além de desprezar a utilidade do planejamento”.

5- SE ORGANIZE NO CURTO PRAZO; SAIA DO CHEQUE ESPECIAL

Uma das linhas de crédito mais acessíveis, o cheque especial é também uma das mais caras. O custo de usar esse limite é de 328,6% ao ano, segundo dados de dezembro do Banco Central.

O mais importante é saber como o cheque especial funciona, antes de fazer uso da ferramenta.

A falsa sensação de que aquele dinheiro lhe pertence pode ser o primeiro passo para se afundar em uma dívida impagável. Para Assaf, essa modalidade de crédito só deve ser usada em uma emergência e por poucos dias.

Pagamentos de contas ou compras de bens não são justificativas para recorrer ao cheque especial. "É preciso que seja algo realmente inesperado".

Com a dívida assumida, o melhor caminho é se reorganizar e calcular todos os ganhos e despesas para traçar uma estratégia para os próximos meses.

Em seguida, o ideal é propor uma renegociação e pedir ao banco uma linha de crédito com juros mais baixos para quitar a dívida.

6 - ESCOLHA BEM SUA LINHA DE CRÉDITO

Cartões de crédito se apresentam como a opção mais confortável, mas também de maior custo quando utilizados como linha de crédito. “Todo crédito fácil é caro”, diz Schwalfemberg.

A dica do consultor é não se deixar levar pelo caminho mais fácil, como por exemplo, o cheque especial, cujo limite é pré-aprovado. 

Além disso, a diferença entre os juros praticados pelas instituições financeiras costuma ser grande. Para pequenos empresários, Schwalfemberg aconselha que a primeira opção considerada seja a do crédito cooperado.

Se essa alternativa já estiver esgotada, o ideal é buscar uma linha de crédito pessoal. 

“Se nada der certo, o cheque especial surge como alternativa. No último caso, o refinanciamento de imóvel e veículo também pode funcionar”. 

*FOTO: Thinkstock



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