São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Economia

Valorização do dólar pode fazer a Selic subir mais, diz Loyola
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Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, diz que a alta da moeda norte-americana será repassada para a inflação, mas pode ser positiva para setores da indústria

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio da Tendências Consultoria Integrada, avalia que os juros vão ter de subir mais para combater a inflação, que seguirá pressionada pela alta do dólar.

Após ministrar uma palestra no Instituto de Advogados de São Paulo (Iasp), nesta sexta (20), Loyola disse que a consultoria colocou em revisão as projeções para o aumento da taxa básica de juros (Selic) neste ano. Ele avaliou ainda que um efeito positivo do aumento do dólar poderá ser observado por setores da indústria.

A previsão que será revisada, considerando o novo cenário para a taxa de câmbio, é a atual: de um aumento de 0,25 ponto percentual (p.p.) na Selic, que passaria na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dos atuais 12,75% ao ano para 13% ao ano.

Essa revisão será necessária porque a valorização do dólar é repassada para os preços da economia brasileira, um efeito que os economistas chamam de pass-through do câmbio. Esse efeito pode requerer mais juros para amenizar os efeitos secundários sobre a inflação.

"O aumento de juros não atua sobre a correção de preços administrados, por exemplo, mas pode dificultar a transmissão dos efeitos ao longo da cadeia", diz Loyola.

Para ele, o BC já deve considerar uma inflação próxima de 8% no acumulado de 12 meses neste ano, mas o mais importante é ver o que ocorrerá com as expectativas de inflação para 2016. "Se as expectativas começarem a desgarrar é porque o BC não está conseguindo ancorá-las", afirma.

Loyola concorda com o presidente do BC, Alexandre Tombini, quando ele diz que o pass-through hoje é bem menor do que era há dez anos, mas ressalva que o desempenho da economia também influencia o repasse. 

"Se o nível de atividade econômica é maior, o pass-through é maior. Se é menor, o repasse também é menor", diz, acrescentando que parte da diminuição dos repasses das altas do câmbio para os preços está associada ao baixo crescimento da economia brasileira.

Ainda de acordo com Loyola, agora o repasse é menor também porque o empresário está acomodando parte da alta do dólar na sua margem de lucro. O ex-presidente do BC acredita, no entanto, que a alta do dólar deverá ajudar alguns setores da indústria que se beneficiarão da substituição de produtos importados por nacionais.

TRAJETÓRIA DO DÓLAR

Para Loyola, o BC deverá adotar uma postura de, aos poucos, abandonar o programa de oferta de swaps cambiais (contratos de venda de dólar no mercado futuro) para evitar uma maior volatilidade do câmbio. Mas ressaltou que isso teria de ser de forma gradual.

"Abandonar o programa de swap cambial de uma vez geraria maior volatilidade e seria uma mudança da regra do jogo", diz.

Segundo Loyola, o BC tem sinalizado que quer fazer a transição sem causar mais volatilidade ao mercado. 

Outro fator que tem influenciado a cotação do dólar no Brasil é o cenário para a economia dos Estados Unidos e da China. 

De acordo com o ex-presidente do BC, a economia norte-americana ainda se ressente da crise de 2008, mas dá sinais de recuperação: já reduziu a expansão de moeda e já sinaliza com aumento de juros. 

Com relação à China, ele diz que a desaceleração do crescimento chinês contribui para reduzir os preços dos produtos primários e a entrada de dólares no país num cenário em que a moeda norte-americana se valoriza perante quase todas as outras divisas do mundo.

Outro fator que ajuda a pressionar o dólar é a dificuldade da economia europeia em crescer, em especial a zona do euro. 
"Com isso, a balança comercial terá uma recuperação lenta por causa das dificuldades de nossos parceiros", diz. Para o ex-presidente do BC, a despeito do dólar valorizado, o Brasil não vai se beneficiar da abertura de novos mercados.

ENERGIA ELÉTRICA E PIB

Loyola reiterou que não está totalmente descartado um racionamento de energia elétrica no país. Ainda de acordo com ele, se houver um corte de 10% no fornecimento de eletricidade no Brasil, o impacto seria de queda de 0,8 p.p. no PIB (Produto Interno Bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos no país).

"Hoje a nossa previsão é de uma retração de 1,2% do PIB. Se houver o racionamento, a queda será de 2%", diz. De acordo com Loyola, se os ajustes do ministro Joaquim Levy forem bem-sucedidos, a economia crescerá 1,5% em 2016.

O ex-presidente do BC prevê que a inflação fechará este ano em 7,9% e que o BC terá de enviar carta ao Ministério da Fazenda explicando as razões de o IPCA ter encerrado 2015 acima do teto da meta, que é de 6,5% ao ano. 

 



Redução maior foi discutida na reunião do Copom, mas ainda depende da queda na resistência de alguns componentes do índice de preços, segundo Ilan Goldfajn, presidente do BC

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Em relação ao Regime Próprio de Previdência, que paga as aposentadorias dos servidores públicos, excedente será de cerca de R$ 60 bilhões em 10 anos

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Porém, no acumulado do ano, o valor supera o registrado em 2015. A informação é do Dieese, que diz que o salário mínimo necessário para suprir as necessidades das famílias seria R$ 3.940

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