São Paulo, 24 de Junho de 2017

/ Economia

Sem medo: Marine Le Pen não ganhará na França
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Candidata da extrema-direita será a mais votada no primeiro turno das presidenciais. Mas perderá no segundo turno para um dos candidatos pró-globalização

O Reino Unido tende a se fechar comercialmente após sua saída da União Europeia (Brexit). O mesmo acontece com os Estados Unidos de Donald Trump.

Agora, só falta que o protecionismo também chegue à França, com Marine Le Pen e o espantalho da antiglobalização, sob  as vestes da extrema-direita.

A preocupação faria sentido se a sucessão do presidente François Hollande se decidisse no primeiro primeiro turno  de 23 de abril. Le Pen deverá encabeçar a votação, com 27%.

Mas ela será tranquilamente derrotada no segundo turno de 7 de maio, segundo duas pesquisas eleitorais publicadas na última quinta-feira (23/02).

A questão consiste em saber quem a derrotará e se tornará o próximo presidente da França.

Quando o horizonte eleitoral se definiu em dezembro, com as primárias do bloco de centro-direita, emergiu o nome de François Fillon, 62 anos, que foi primeiro-ministro do presidente Nicolas Sarkozy.

Mas Fillon entrou em declínio, depois que jornais denunciaram que ele, quando deputado, havia contratado Penélope, a própria mulher, como funcionária-fantasma de seu gabinete na Assembleia Nacional.

A situação dele se tornou eleitoralmente delicada. Mesmo assim, caso seja ele o finalista, derrotaria Marine Le Pen por 55% a 45%.

Uma vitória mais eloquente contra a extrema-direita partiria de Emmanuel Macron, 39 anos, que foi ministro das Finanças do presidente François Hollande e hoje corre na política em faixa própria, tendo fundado o movimento centrista "Marchons" (Avancemos).

Ele venceria Marine Le Pen por  61% a 39%, segundo o instituto BVA.

Na pesquisa do instituto Harris, Fillon ganharia por 57% a 43%, enquanto Macron, um pouco mais confortável, venceria por 60% a 40%. Em outras palavras, não há cenário que aponte para a vitória da candidata radical.

O fato é que o adversário dela no segundo turno teria a vantagem de reunir seus próprios votos e os votos de mais uma parte substancial do eleitorado de esquerda, numa operação de voto útil contra o nacionalismo extremado.

A esquerda está dividida entre quatro candidatos. O de maior visibilidade vem do Partido Socialista: Benoit Hamon, ex-ministro da Educação do atual presidente François Hollande.

Mas as pesquisas coincidem em prever, para ele, e na melhor das hipóteses, a quarta colocação no primeiro turno.

O partido de Marine Le Pen, a Frente Nacional, conseguiu uma única vez chegar ao segundo turno. Foi em 2002, quando uma cochilada do eleitorado de esquerda – o voto na França não é obrigatório – permitiu que o pai dela, Jean-Marie Le Pen, desclassificasse o candidato socialista, Lionel Jospin, por uma margem inferior a um ponto percentual.

O beneficiário do voto útil, na época, foi o presidente conservador Jacques Chirac. Para derrotar Le Pen, ele recebeu o apoio maciço dos eleitores da esquerda. Chirac saltou de 20% para 82%, entre o primeiro e o segundo.

PAI E FILHA

Há algumas diferenças básicas entre Frente Nacional de 2002 e a plataforma atual do partido. Com Jean-Marie Le Pen, o pai, o projeto político consistia em se associar ao máximo à Ação Francesa dos anos 1930, com formas explícitas de racismo e de antissemitismo.

Com Marine Le Pen, a filha, se engavetou o ódio aos judeus, incorporou-se a tolerância ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Mas o nacionalismo se deslocou para a economia e para a imigração – proposta de limitação extrema da entrada de muçulmanos.

É o tópico que nos interessa. A Frente Nacional se opõe à União Europeia – acena com um projeto de referendo semelhante ao Brexit –e acredita que a prosperidade econômica só é possível com o ressurgimento do Estado nacional, segundo o modelo que, aliás,  levou a França a suas três últimas guerras mais destrutivas (contra a Prússia, em 1871, e as duas guerras munciais do século 20).

É uma concepção de soberania centrada na produção e no consumo. Quanto mais poderosos os tentáculos do Estado sobre a economia, melhor seria para o mercado, segundo essa nova utopia.

O problema é que a França começou a se globalizar timidamente com o Tratado de Roma, que em 1958 instituiu o Mercado Comum Europeu, bloco que precedeu a União Europeia.

Não há indústria de médio ou de grande porte que não utilize componentes produzidos em outro país da União Europeia, ou cujo mercado seja essencialmente francês.

O mesmo vale para os bancos. Empréstimos ou descontos de duplicatas podem ocorrer num banco holandês, alemão ou espanhol, sem que a operação se caracterize como estrangeira.

O mesmo vale para o comércio. O lojista se abastece de produtos italianos, poloneses, portugueses ou belgas. O mercado está perfeitamente integrado, e qualquer recuo aos modelos anacrônicos seria péssimo para todos os lados.

Marine Le Pen também quer se retirar da Zona do Euro e reinstituir o franco francês. As instituições europeias de Bruxelas não poderiam mais legislar sobre todo tipo de regulamentação – sanitária, de normas técnicas – de que a França e seus parceiros abriram mão.

O que consola é que essas propostas ensandecidas, por mais que agradem uma parcela minoritária dos cidadãos franceses, não serão levadas adiante por falta de viabilidade eleitoral.

Em outras palavras: Marine Le Pen não tem o cacife de outros dirigentes da extrema-direita europeia, como o italiano Matteo Salvini, da Liga Norte, o holandês Geert Wilders, do Partido para a Liberdade, ou a alemã Frauke Petri, da Alternativa para a Alemanha.

São todos inimigos da ampliação do comércio e da globalização, proprietários de um sonho que faria a cronologia do progresso andar para trás.

 

FOTO: Thibault Camus/Estadão Conteúdo/AFP



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