Economia

Risco Brasil é baixo porque mercado ainda crê na aprovação das reformas


É o que afirma Marco Maciel, economista-chefe da Bloomberg, em palestra na ACSP. Segundo ele, isso explica o câmbio na faixa de R$ 3,30, em vez de até R$ 3,80


  Por João Batista Natali 26 de Junho de 2017 às 15:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Caso não seja aprovada a reforma da Previdência, a dívida pública brasileira chegará a 95% do PIB em 2027 (conjunto de riquezas produzido no pais). Com a reforma, no entanto, naquela data a dívida ficará bem mais abaixo, ou 69% do PIB.

Foi o que afirmou nesta segunda-feira (26/06) Marco Maciel, economista-chefe da Bloomberg Intelligence para o Brasil, em palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Maciel é especialista em Credit Default Swaps (CDS), modalidade de seguro contratado pelas empresas com empréstimos no exterior, e cujas taxas refletem a visão do mercado internacional sobre os riscos existentes.

Ele foi o convidado do Conselho de Economia da associação, presidido pelo economista Roberto Macedo. Os trabalhos foram abertos por Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).

O economista tem pós-graduação na New School for Social Research, de Nova York, e na Universidade de Cornwell, além de mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Atuou, antes da Bloomberg, na Itaú Corretora e nos bancos Bozano-Simonsen e ING.

Nos estudos sobre conjuntura brasileira que tem elaborado para seus clientes, sobretudo estrangeiros, ele diz refletir o diagnóstico de que, apesar dos problemas que o presidente Michel Temer passou recentemente a enfrentar (delação de Joesley Batista), o mercado acredita que as reformas ainda estão na agenda política, a ser cumprida pelo próprio Temer ou por algum eventual presidente interino, como Rodrigo Maia ou Tasso Jereissati.

Essa impressão explica o fato de o câmbio estar na faixa de R$ 3,30 por dólar, e não entre R$ 3,50 a R$ 3,80.

O retrato cambial é importante, disse Maciel, porque a cotação funciona como um espelho dos CDS, os seguros que cobrem as incertezas das empresas que tomaram empréstimos em dólar no mercado externo.

Esse seguro, afirmou, toma por base o preço dos títulos do governo americano, acrescido de uma percentagem que reflita os fatores de risco.

Esse ágio está hoje em 8%. Mas se em 2016 crescerem as chances da candidatura presidencial de Luís Inácio Lula da Silva, ele poderá saltar para 15%.

ONDE DEVERIA ESTAR O CÂMBIO?

Ocâmbio, constatou, leva em conta a situação das contas do governo. Entre 2010 e 2012, por exemplo, as contas públicas geravam um superávit primário de 1% a 3%. É por isso que o dólar estava cotado em R$ R$ 2,00.

"Estamos agora com um déficit de 3% (embora o governo informe 2%). O câmbio deveria então estar em R$ 3,50. E só está abaixo dessa cotação em razão da aposta do mercado – apesar das turbulências políticas – na agenda das reformas", diz Maciel.

Sem o fator Joesley, o câmbio se manteria em R$ 3,10, patamar em que estacionou no final do primeiro trimestre.

Indagado, Marco Maciel afirmou que seria irresponsável utilizar as atuais reservas cambiais para outras finalidades, como o abatimento da dívida pública –o que evitaria a emissão de novos títulos do Tesouro.

Citou o exemplo da Rússia, que em 2009 – com os efeitos na Europa da crise do setor financeiro norte-americano – tinha US$ 600 bilhões em reservas cambiais.

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 Pois o país perdeu metade dessas reservas para manter as importações e as operações em dólar do sistema financeiro local. Sem essa garantia, afirmou, a Rússia poderia ter quebrado.

“As reservas são o último cheque especial que o Brasil tem. Não se pode tocar nelas.”

Ao exemplificar o custo dos CDS como os riscos da economia, Maciel disse que no final do governo Dilma Rousseff essa forma de seguro estava no mesmo patamar que o Cazaquistão.

Agora, no entanto, pode ser comparável à Turquia. Ressalvou que para tanto não vale a comparação com o México, habitualmente feita na recente história econômica brasileira, porque os mexicanos estão em posição melhor que a nossa.

Em termos práticos, os CDS brasileiros com Dilma estavam 2% mais caros que os da Turquia, mas essa diferença caiu para mais 0,25% na cotação pré-Joesley.

Ao abordar as taxas de juros, Marco Maciel disse que a Selic poderá cair a 8% no curto prazo e a 7% em prazo maior. Entre os fatores evocados, está a taxa de aprovação do presidente Temer pelo Congresso.

Trata-se de um tópico sobre o qual é possível quantificar um índice. Esse tópico estava em 79% antes da delação de Joesley. Deve estar hoje um pouco acima de 60%.

Curiosamente, concluiu Marco Maciel, ao longo dos mandatos de Lula e Dilma, o apoio no Congresso poderia ser traduzido por uma curva que acompanhava a taxa do PIB.

E, mais curiosamente ainda, com Michel Temer, e com base nessa comparação com o PIB, essa curva se descolou e passou a ser muitíssimo maior.

FOTO: Thais Ferreira/Diário do Comércio