São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Economia

Recessão atinge emprego e país perde 115,6 mil postos de trabalho
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Número veio acima da projeção de analistas e reflete a queda da atividade econômica. Tendência é que mercado de trabalho continue em deterioração

A queda da atividade econômica, que foi de 0,84% em abril na comparação com março - de acordo com a prévia do PIB (soma de bens e serviços produzidos pelo país) - reflete fortemente no desemprego. Em maio, foram fechados 115,6 mil postos de trabalho no Brasil, segundo os dados do Caged (Cadastro-Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). 

O número é resultado de 1,580 milhão de demissões contra 1,465 milhão de admissões. O corte de vagas veio acima da projeções e surpreendeu boa parte dos analistas. A tendência, segundo economistas, é de um cenário negativo para o mercado de trabalho como um todo neste ano - não só pelo corte de vagas, mas pela redução de salários.

"Nossa projeção era de uma redução de 45 mil vagas. O resultado foi muito negativo e bem abaixo ao apurado no mesmo mês de 2014, quando foi positivo em 58,8 mil postos de trabalho. Foi o pior desempenho para o mês de maio na série histórica (iniciada em 1992)", diz Rafael Bacciotti, economista da Tendências.

Em abril deste ano, haviam sido fechadas 97,8 mil vagas no país. No acumulado do ano, segundo o Caged, houve uma perda de 243,9 mil vagas, resultado de 8,265 milhões de contratações contra 8,509 demissões no período. 

Os setores nos quais o desemprego mais aumentou foram os da Indústria de Transformação, responsável pelo fechamento de 60,9 mil postos em maio, e o de Serviços, que reduziu 32,6 mil vagas de trabalho. 

O terceiro destaque foi a Construção Civil, com queda de 29,8 mil vagas. No Comércio, a retração foi de 19,3 mil empregos. 

Segundo o Caged, o único setor que teve desempenho positivo, em maio, foi Agricultura, com geração de 28,4 mil postos de trabalho.

Bacciotti diz que a indústria de transformação e o setor de construção civil já apresentavam uma redução gradual de vagas. O que chamou a atenção dele no resultado do Caged foi o incremento de demissões nos setores de serviços e comércio, que costumam ser grandes empregadores. 

"O ambiente negativo que se observava, há mais tempo, na indústria e construção, propagou para os serviços - que mais emprega mão de obra no país. Vamos ajustar nossas projeções para o ano, no qual devemos observar um quadro negativo para o mercado de trabalho", diz. 

Carlos Acquisti, economista-chefe da Infinity Asset, diz que, no curtíssimo prazo, não vê possibilidade de uma reversão significativa do atual panorama desfavorável para o emprego.

"De uma forma geral, os números da atividade estão piores do que as projeções, que já eram negativas. Com a atividade com a cara que está, o mercado de trabalho deve continuar piorando", afirma Acquisti. 

A projeção, segundo levantamento do AE Projeções, era de um corte de 52 mil vagas para o mês passado. Foi a primeira vez que o Caged apresentou resultado negativo em maio, segundo o MTE.

"É importante ressaltar que o mercado de trabalho costuma ser um dos que mais demoram a piorar, dado que é oneroso o processo de demissão e recontratação. De uma forma geral, quando as empresas demitem é porque as expectativas de curto e médio prazo estão ruins", diz o economista da Infinity.

BOM PARA A INFLAÇÃO

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, diz que não ficou surpreso com o aumento do número de postos de trabalho fechados no mês passado - já que isso faz parte do ajuste em curso na economia. 

Ele diz que o fechamento de vagas no setor de serviços, apesar de negativo, pode ser "entendido como uma boa notícia", pois ajudará mais fortemente o controle da inflação.

"O resultado veio em linha com o ajuste esperado na economia brasileira por meio do mercado de trabalho. O governo tem que entregar uma desaceleração econômica de tal sorte que o emprego diminua e o salário pare de subir e até caia em termos reais", afirma. 

Ele destacou que o saldo negativo de 32,6 mil vagas em serviços deve ajudar a controlar a inflação do setor, que vem rodando em patamares muito altos, o que servirá como um "contraponto" à alta de preços administrados e variação cambial.

Mesmo com a piora do desemprego e da renda, o economista prevê que o Banco Central deve continuar com o ciclo de aperto monetário até conseguir ancorar as expectativas da inflação para o ano que vem. "Se a situação está ruim agora, imagine em setembro, quando deve fazer a última alta de juros, para 14,5%", afirma.

*Com informações de Estadão Conteúdo



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