São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Economia

Queda em 6,5% em serviços amplia cenário de crise
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Desemprego e clima de recessão atingem setor de serviços, que teve crescimento de 1,7% na receita nominal em abril, mas esse número volta a ser negativo porque ele não leva em conta a inflação

Descontada a inflação anual de 8,2%, a receita de serviços caiu 6,5% no quarto mês deste ano. O dado é do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Nas contas da instituição, ocorreu elevação de 1,7% na receita nominal do setor  em abril, mas esse número é neutralizado pela alta dos preços. Ele também sinaliza que os ganhos do setor voltaram a se alinhar a resultados mais fracos registrados em janeiro e fevereiro, reforçando a percepção de que a alta nominal de 6,1% em março foi um ponto fora da curva.

Para Emílio Alfieri, economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), os dados evidenciam que o consumo das famílias está sendo cortado de forma drástica até em serviços essenciais, como alimentação.

“Preocupa saber que as pessoas estão cortando a própria alimentação. Fica claro que o setor de serviços que, normalmente, era o mais resistente, e até ano passado se mostrava imune à crise já é afetado”, diz. “Mesmo quem está empregado, vai economizar”.

Alfieri recupera um dado divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), sobre a taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo, em abril, quando o setor de serviços eliminou 24 mil postos de trabalho. "Isso ilustra bem que o segundo semestre deve ser ainda mais preocupante", diz.

Para Alfieri, o governo parece estar muito empenhado em atingir a meta de 4,5% de inflação até o final de 2016. “Tudo sugere que o governo não medirá esforços para chegar a esse número, no entanto, seria prudente ponderar esse prazo para que os juros não subam tanto, e não entremos em uma recessão ainda mais severa”, diz. 

Em uma avaliação geral, o economista adianta que o mercado deve se preparar para sobreviver à crise. “O conselho é ficar de olho no caixa, manter o equilíbrio das finanças, evitar dívidas e estoques altos. Pois, o cenário é extremamente adverso.” “Embora tenhamos o histórico de 1999, 2003 e 2009, esse ano o comércio deve enfrentar dias mais difíceis dos que já foram vistos”, diz.

IBGE

Juliana Paiva Vasconcellos, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE, explica que a dinâmica do setor de serviços acompanha as demandas da indústria, do comércio e da agricultura, diante da conjuntura desfavorável e da desaceleração da economia.

"Como a economia está desacelerando, os serviços se situam num patamar abaixo de anos anteriores. Claramente o setor está em tendência de queda quando comparado a 2014", disse Juliana. 

Até abril deste ano, a receita nominal de serviços acumula alta de 4,3% em 12 meses. Trata-se do pior resultado da série histórica, iniciada em janeiro de 2013 neste tipo de comparação. Essa taxa vem em declínio desde março de 2014, quando estava em 8,7%.

A fraqueza da economia também pode ser sentida nos serviços prestados às famílias, cuja receita cresceu 1,2% em abril sobre abril de 2014, o pior desempenho da série iniciada em 2012. A queda na renda e o aumento dos preços são desestímulos ao consumo desses serviços, segundo Juliana.

"Os serviços prestados às famílias estão muito abaixo de seu patamar normal, influenciado pela renda", disse. 

Ela lembrou que a massa de rendimento real habitual dos trabalhadores encolheu 3,8% em abril ante abril do ano passado, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que avalia as condições do mercado de trabalho nas seis principais regiões metropolitanas do País.

Os custos cada vez mais elevados com alimentação fora do domicílio também desencorajam o consumo. O item subiu 10,5% em 12 meses até abril, contra 8,2% da inflação média oficial. "Com restrição orçamentária e período de incertezas, pessoas tendem a cortar idas a restaurantes, por exemplo. Então, esse setor (de serviços prestados às famílias) sofreu mais, por causa dos preços maiores e da renda caindo", disse Juliana.

Em 12 meses até abril, a receita nominal dos serviços prestados às famílias cresceu 7,0%, também o menor desempenho da série, iniciada em 2013 neste tipo de comparação. Em dezembro do ano passado, essa taxa era de 9,2%. "Pode ser que agora as famílias tenham puxado mais o freio no consumo de serviços que não são essenciais para seu dia a dia", analisou a gerente do IBGE.

RESULTADO ESPERADO

Para Fábio Bentes, economista-sênior da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), esse resultado não é uma surpresa. Segundo ele, em janeiro e fevereiro, o faturamento do setor terciário caiu 7,0% e 7,7% em termos reais, respectivamente, enquanto no terceiro mês do ano, a retração foi de apenas 1,9%.

"O resultado de abril não chega a ser antecedente porque o mercado de trabalho sinalizava essa desaceleração", disse. 

O especialista também cita o Caged. Na comparação de abril de 2015 com abril de 2014, o emprego no setor apresentou a menor taxa de crescimento em oito anos. "A quantidade de pessoas ocupadas nos serviços pesquisados pela PMS (pesquisa mensal de serviços), do IBGE - que excluem serviços financeiros, de saúde e educação - avançou apenas 0,9%, a menor expansão desde 2007", pontuou.

Bentes ressalta também a desaceleração da receita nominal dos serviços prestados às famílias, que recuou de uma alta de 6,8% em fevereiro para elevação de 1,2% em abril, na comparação com meses imediatamente anteriores. A expectativa do economista-sênior para 2015 é de queda real na receita do setor de serviços como um todo entre 3,5% e 4,0%. 

"Para este ano, pode-se esperar com toda a segurança que até os componentes da PMS que vinham impulsionando o setor estão perdendo força." Para o economista, este movimento reforça a projeção de queda real do faturamento.

*Com informações de Estadão Conteúdo



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