São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Economia

Plebiscito grego deve provocar fuga de risco dos capitais
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Bancos amanhecerão fechados amanhã. A medida foi adotada após uma corrida aos caixas eletrônicos para retirada de dinheiro diante da incerteza da situação financeira do país

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou que os bancos gregos estarão fechados na segunda-feira (29). Ele assegurou que estão garantidas as poupanças, salários e pensões dos cidadãos. A medida foi tomada após uma corrida dos gregos aos bancos para retirar dinheiro diante da incerteza da situação financeira da Grécia.

Na maioria das caixas multibanco do centro de Atenas hoje (28) não havia mais dinheiro disponível, enquanto as filas cresciam.

A decisão foi anunciada após uma reunião entre o ministro das Finanças Yanis Varoufakis, o presidente do Banco da Grécia, Yannis Stournaras, e os chefes dos quatro principais credores da Grécia.

O Banco Central Europeu informou mais cedo que vai congelar por enquanto o nível de empréstimos de emergência para os bancos gregos ao patamar da sexta-feira, uma decisão que pode deixar o país mais perto de ter de impor controles de capital para interromper o avanço dos saques de depósitos, que parecem ter acelerado ao longo do fim de semana.

"O Conselho está disposto a reconsiderar a sua decisão", disse o BCE depois de uma teleconferência, uma indicação de que o quer manter suas opções em aberto em meio a negociações difíceis entre a Grécia e os seus credores sobre seu programa de resgate, que expira terça-feira. Essas negociações fracassaram no fim de semana, depois de Atenas anunciar um referendo para que o público decida sobre o rumo do país.

Até sexta-feira, o BCE estava estendendo quase 89 bilhões de euros (US$ 99,4 bilhões) em assistência de liquidez emergencial para os bancos gregos. A decisão de manter inalterado o nível significa que não haverá mais captação (funding) extra para cobrir nova fuga de depósitos.

"Continuamos a trabalhar em estreita colaboração com o Banco da Grécia", disse o presidente do BCE, Mario Draghi.

A decisão do BCE veio menos de dois dias após o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras surpreender líderes europeus, ao anunciar um referendo na Grécia sobre a aceitação das condições de credores do país para desbloquear a ajuda financeira.

Quando os mercados fecharam na sexta-feira, um acordo para a Grécia ainda era algo em vista. Na manhã desta segunda-feira (29), uma cadeia de eventos iniciada pela decisão grega de mudar o curso e colocar as demandas dos credores para ser votada em um plebiscito deve levar a uma fuga do risco, provocar questionamentos sobre os pressupostos subjacentes ao euro e colocar os bancos gregos em uma posição delicada, disseram analistas neste fim de semana.

A decisão do Banco Central Europeu (BCE) domingo de manter os empréstimos emergenciais para os bancos no mesmo nível da sexta-feira significa que o sistema bancário do país está agora "à beira de algo terrível", afirmaram os estrategistas do Citigroup neste domingo.

A imposição de controles de capital parece cada vez mais provável, enquanto a Grécia deve fazer um pagamento ao Fundo Monetário Internacional (FMI) na terça-feira "que ninguém espera que seja pago", disseram estrategistas de câmbio do Citigroup.

Na avaliação deles, a imposição de controles de capital pode vir em breve, sugerindo que as chances de uma saída da Grécia da zona do euro são maiores do que eram na sexta-feira e acrescentando que as demandas mais rígidas sobre a qualidade das garantias oferecidas também são um risco, assim que o BCE se reúne na próxima semana.

LEIA MAIS: Não é inevitável que a Grécia acabe como um "Estado Falido". Por Paul Krugman

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está monitorando atentamente os fatos envolvendo a Grécia e seus vizinhos, afirmou neste domingo (28) a diretora-geral da entidade, Christine Lagarde.

No sábado, os ministros das Finanças da zona do euro decidiram deixar expirar o pacote de ajuda ao país, no fim deste mês. Com essa decisão, é quase certo que Atenas não realizará um pagamento de 1,55 bilhão de euros (US$ 1,73 bilhão) ao FMI que vence na terça-feira (30).

"Os próximos dias serão claramente importantes", disse Lagarde, acrescentando que saúda a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de "fazer uso completo de todos os instrumentos disponíveis para preservar a integridade e a estabilidade da zona do euro".

Neste domingo, o BCE afirmou que iria congelar os empréstimos emergenciais aos bancos gregos no nível atual. Isso deve provavelmente levar o governo grego a em breve impor controles de capital, para evitar uma corrida dos gregos para tirar dinheiro dos bancos.

"Essas declarações ressaltam que a zona do euro hoje está em uma posição forte para responder aos fatos de uma maneira oportuna e efetiva", afirmou Lagarde. O FMI segue atenta aos fatos envolvendo a Grécia e seus vizinhos "e está pronto para prover assistência, se necessário", disse ela.

Os bancos gregos são atores importantes em alguns dos sistemas financeiros vizinhos. Na Bulgária, subsidiárias do Banco Nacional da Grécia, do Alpha Bank, do Piraeus Bank e do Eurobank Ergasias controlam 22% dos ativos bancários, fatia similar à controlada pelos bancos gregos na Macedônia. Os bancos gregos também estão ativos na România, na Albânia e na Sérvia.

O FMI já disse no mês passado que está trabalhando com esses países em planos de contingência, no caso de um eventual default da Grécia. Na ocasião, o FMI disse que as subsidiárias dos bancos gregos pareciam ter liquidez adequada e não registravam grande volume de retiradas.

Lagarde também disse neste domingo que o FMI está preparado para trabalhar com a Grécia para restaurar a estabilidade econômica e o crescimento, contanto que o governo de Atenas esteja disposto a implementar cortes necessários no orçamento e reformas políticas.

BRASIL

Em entrevista coletiva na sexta-feira (26/6), o economista-chefe para a América Latina do BNP Paribas, Marcelo Carvalho, afirmou que, caso a Grécia opte pelo calote, quem mais vai sofrer é o próprio país do que a Europa como um todo. “A exposição da Europa em termos de balança comercial à Grécia é muito pequena. E exposição do setor financeiro é limitada. Já para a Grécia, a saída significa uma recessão profunda”, diz.

Para o Brasil, a consequência é limitada, já que o calote da Grécia é um evento mais localizado, segundo Marcelo Carvalho. Ele avalia que a saída da Grécia do euro provocará uma corrida para o dólar, o que deverá desvalorizar o euro. “Se o dólar se valoriza nesse cenário, o risco é o de aumentar o custo da dívida dos países da periferia da Europa, que sofrem mais com a volatilidade e a aversão ao risco”, afirma.

Especialistas ouvidos pela imprensa internacional ressaltaram que o risco de contágio diminuiu em relação há alguns anos, quando havia maior exposição dos bancos europeus à Grécia. Mesmo países que sofreram mais com a crise de 2008 estão em processo de recuperação, com sinais de retomada de crescimento. 

Para o Brasil, de acordo com esses especialistas, a consequências pode ser indireta, decorrente da maior aversão ao risco entre os investidores. Mas alguns fazem a ressalva –a fragilidade atual da economia faz com que qualquer dificuldade no cenário internacional tenha repercussões mais agudas por aqui. 

*Com Rejane Tamoto, do Diário do Comércio e agências Brasil e Lusa 

 



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