São Paulo, 02 de Dezembro de 2016

/ Economia

O risco para a estabilidade global está nos países emergentes
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O FMI e o Banco Mundial dizem que o Brasil precisará restaurar a confiança e atrair investimentos para atravessar um período de alta do dólar e queda das commodities

Os riscos para a estabilidade financeira global deixaram de vir dos países desenvolvidos e agora estão concentrados nos emergentes, na avaliação do FMI (Fundo Monetário Internacional).

O cenário, nos últimos seis meses, tem sido divergente. De um lado, países da zona do euro e o Japão tomaram medidas para estimular suas economias e reverter a queda da inflação. 
De outro, a evolução da economia norte-americana aumenta a expectativa de alta nos juros dos Estados Unidos, o que já desencadeou uma onda de valorização do dólar.

"Os mercados emergentes foram pegos nessa encruzilhada global e enfrentam riscos mais elevados para a estabilidade financeira, pois empresas que tomaram empréstimos pesadamente nos mercados internacionais podem se deparar com dificuldades nos balanços", diz o FMI no relatório Estabilidade Financeira Global.

O Brasil é um dos países que podem ter problemas com o endividamento em moeda estrangeira e o ciclo de baixo preços das commodities. O FMI e o Banco Mundial elogiam o ajuste fiscal que está em curso pelo governo brasileiro, mas dizem que o país precisa restaurar a confiança e o investimento para voltar a crescer.  

A elevada volatilidade e a rápida depreciação das moedas locais se sobrepõem ao benefício do aumento de competitividade trazido pela desvalorização cambial nos emergentes, segundo o FMI. 

Na avaliação do Fundo, a volatilidade no câmbio subiu, nos últimos meses, mais do que em qualquer outro período desde a crise global. A forte valorização do dólar aumenta a pressão sobre as empresas que tomaram fortemente financiamentos em moeda estrangeira e desencadeia significativa fuga de capital das nações em desenvolvimento.

Para amortecer possíveis impactos de tensões nos mercados, os emergentes devem aumentar a supervisão de setores vulneráveis, recomenda a instituição. O FMI sugere que os reguladores conduzam testes de estresse nos bancos, observando a exposição a moeda estrangeira e riscos referentes aos preços das commodities. 

Não só a moeda estrangeira, mas também a queda no preços das commodities, que ocorre junto com a desaceleração da China, tendem a influenciar o baixo crescimento dos países da América Latina, entre os Brasil, segundo o Banco Mundial.

BRASIL PRECISA RESTAURAR A CONFIANÇA

A questão principal para o Brasil neste momento é restaurar a confiança. Para José Viñals, diretor do departamento Financeiro e de Mercado de Capitais do FMI, as medidas tomadas recentemente pelo governo brasileiro, como as de consolidação fiscal e reformas estruturais, podem levar a um ambiente mais amigável para os negócios, restaurando a confiança dos agentes. 

"Estas medidas, junto com o sistema financeiro, que é sólido, serão muito importantes para o Brasil lidar com desafios que o país, junto com outros emergentes, está enfrentando", afirma.

Chris Walker, economista do FMI, afirma que o Brasil é um dos países em que as empresas aumentaram os passivos em dólar nos últimos anos, ao redor de 15% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país). "A boa notícia é que a maior parte tem proteção (hedge)", diz. 

Na avaliação do economista, a dívida corporativa que está em risco no Brasil é substancial e que a capacidade para honrar passivos de algumas corporações brasileiras está desbalanceada. "O setor de energia brasileiro passou por choques", afirma.

A economia brasileira foi afetada, entre outros fatores, por um choque nos preços das commodities, mas o economista elogia as medidas tomadas recentemente pelo governo federal para resolver os problemas no País. "O ajuste deve colocar a economia em uma rota mais positiva", diz.

Um ponto de preocupação, segundo o FMI, é a alta da inflação no Brasil, que deixa pouco espaço para o corte da taxa básica de juros (Selic). "Para o Brasil, Índia, Indonésia e Turquia, o esperado aumento na taxa real de juros em 2015, na comparação com os quatro anos anteriores, pode ampliar o custo do serviço de dívida no setor privado, onde o crédito cresceu fortemente nos últimos anos", diz em relatório. O documento mostra que o Brasil aparece no pico da curva de aceleração de inflação entre os países em desenvolvimento.

O ajuste fiscal em curso pelo governo para elevar o superávit primário (economia do governo para pagar os juros da dívida pública) também é bem visto. Benedict Clements, economista do departamento de Assuntos fiscais do FMI, disse que a meta de 1,2% do PIB de superávit para este ano e de 2% nos próximos é factível e apropriada. 

Apesar de esperar que o Brasil alcance a meta fiscal, Clements ressaltou que mais precisa ser feito pelo governo federal para cumprir seus objetivos de melhorar as contas fiscais e bater a meta. 

Clements lembrou que é importante que a dívida brasileira entre em trajetória de queda. Para este ano, o FMI prevê um aumento da dívida bruta do Brasil, que iria a 66,2% do PIB, ante 65,2% no ano passado. 

Para 2016, a previsão é que a dívida bruta se estabilize em 66,2%, votando a cair em 2017, quando deve ficar em 65,3%, número bem acima da média dos países emergentes, ao redor de 40%.

"O crescimento está caindo no Brasil, mas acreditamos que as autoridades estão colocando em prática uma boa política fiscal. Acreditamos que o Brasil está fazendo progresso em direção a restaurar a confiança. Melhorar o ambiente de negócios e a confiança dos investidores é essencial para que a atividade econômica volte a se acelerar", afirma.

Augusto de la Torre, economista-chefe para América Latina e Caribe do Banco Mundial, avaliou que o Brasil está adotando a estratégia de readequar seus padrões macroeconômicos de gastos às novas condições, fazendo um esforço grande e necessário para que o investimento tenha papel mais importante do que o consumo. "Não é fácil, porque para isso é preciso atrair os investidores internacionais e locais", diz.

Torre avalia que o Brasil é um caso emblemático na América Latina, pois passou por uma forte onda de crescimento puxada por consumo, e não pelos investimentos - como ocorreu com Chile, Colômbia e Peru, por exemplo. "O país esgotou o motor de crescimento antes dos outros", afirma.

O Banco Mundial prevê que o PIB brasileiro caia 0,7% neste ano, após ficar praticamente estável em 2014. O Brasil aparece na lista das nações latino-americanas que passam por choque mais negativo neste momento. 

Torre disse esperar que o país trate dos atuais problemas de escândalos de forma crível. "Se fizer isso bem, deixará a sensação de que é um país maduro, com instituições sérias, que sabe como administrar problemas de ilegalidade ou escândalos. Ao invés de ser um fator contra, pode ser a favor", diz. 

*Com informações de Estadão Conteúdo



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