São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Economia

“O dia a dia hoje é de trincheira de guerra, de subsistência”
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Nicola Tingas, economista brasileiro e filho de gregos, relata a situação de seus parentes na Grécia e traça paralelos entre o país e o Brasil

Brasileiro e filho de gregos, Nicola Tingas é economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento) mas acompanha a situação na Grécia além dos números. 

Apesar de ter morado por pouco tempo na Macedônia grega, durante a adolescência na década de 1970, frequentemente viaja ao país para visitar os tios e três irmãos. Desde a semana passada, Tingas tem falado com mais frequência com uma de suas irmãs, que agora só se preocupa em comprar alimentos. 

Em entrevista ao Diário do Comércio, o economista conta como os últimos dias têm sido tensos para os cidadãos gregos e explica essa crise – e em que pontos suas causas se assemelham aos problemas brasileiros. 

Como está o clima na Grécia, segundo os relatos de seus irmãos?

Uma das minhas irmãs está aposentada por motivo de saúde, tem um marido desempregado há muito tempo e uma filha adolescente. Todo mês estou mandando dinheiro para ela, que está recebendo uma pensão de 300 euros, equivalente a cerca de R$ 900. Não dá para nada. Eles mal estão comendo e não pagam a conta de luz. A situação dela é a de muita gente na Grécia. Ela trabalhava em uma companhia telefônica e não ocupava um alto cargo. Foi afastada por problemas de saúde e rebaixaram a aposentadoria dela, que era maior, no pacote econômico anterior.

Boa parte da população está vivendo em uma linha baixa de pobreza e de subsistência. Muitos gregos que estavam com um bom caixa nos últimos anos tiveram suas economias escasseadas. Os mais ricos e aqueles que fizeram parte da máfia da corrupção compraram mansões e empreendimentos na Inglaterra, o que o The Wall Street Journal inclusive noticiou. 
 

E sua irmã está conseguindo sacar dinheiro nos bancos?

Desde a semana passada ela está correndo todos os dias para sacar o dinheiro da aposentadoria no caixa eletrônico. Disse que vai comprar tudo em comida. O povo já especula que pode não ter saída para a crise e que uma nova moeda entrará em circulação. Só que ela seria desvalorizada, o que fará o poder aquisitivo cair.

Os preços dos alimentos vão subir porque tudo é importado nos supermercados. O dia a dia hoje é de trincheira de guerra, de subsistência. O cidadão médio grego, apesar de culto como todo europeu médio e mediano, é ainda simplório e está perplexo. Ele não tem compreensão total de tudo o que está acontecendo. Eles tinham a confiança em uma negociação.  O patamar de ajuste na Grécia não gerou uma recessão e sim uma depressão.
 
Por que isso aconteceu com a Grécia?

O problema é que a Grécia foi colocada no euro indevidamente, pois não tinha condição técnica para isso. De fato, o Goldman Sachs maquiou os dados por três vezes para conseguir incluir o país. Havia o interesse da Alemanha em envolver o maior número de países no euro. A Grécia tinha valor simbólico, não econômico, e por isso já entrou deficitária. Na fixação do euro, quem levou vantagem foi a Alemanha, porque a taxa de câmbio do país já estava em melhor paridade na comparação com os países periféricos. Além disso, não houve incentivo em manter a indústria local grega e sim para a compra de importações do bloco. A Grécia, a partir de financiamentos para infraestrutura, recebeu dinheiro e melhorou o padrão de vida.

Ao mesmo tempo, não cuidou de aumentar a produtividade para fazer face à dívida que viria. E pior, desindustrializou o país, que partiu para as importações. Hoje, na Grécia, fora alguns produtos agrícolas, tudo é importado no supermercado: da Alemanha, da Suécia, da Suíça. Até a alimentação industrializada. O país se enfraqueceu economicamente em geração de receita, de crescimento e de produto.  Entrou em um ajuste cavalar e desproporcional, não aguentou e sofreu um colapso em 2012. Naquela época não deixaram a Grécia sair, e hoje, em tese, podem fazer isso. 

A atitude da Grécia de não ter aproveitado o período de bonança para investir e aumentar a produtividade e, ao contrário, ter consumido mais é parecida com a do Brasil durante o boom das commodities, que também optou pelo consumo e não pelo investimento?

Sim. Neste ponto é bem parecido. A Grécia não aproveitou a entrada no euro para usar os recursos e desenvolver o país. Os gregos preferiram consumir, viver bem e se aposentaram com a ideia de que são parte do euro, de que os investimentos viriam e aumentaram o padrão de vida sem se preocupar com o fim da festa – que sempre existe. Era um ciclo no qual o país tinha de se preparar melhor para produzir no futuro.

Como foi com o ciclo de altos preços das commodities no Brasil, que poderia ter sido uma fase de preparação. Há pessoas que não gostam muito de comparações com a Coreia do Sul, mas ela investiu uma geração de 25 anos em educação e tecnologia. Mandou centenas de jovens coreanos estudarem nas melhores universidades do mundo. Tudo isso transformou um país que não era nada nisso. É necessário contar com investimento e uma política. Aqui no Brasil não conseguimos discutir projeções de três anos para frente. Só conseguimos olhar para este ano e o próximo. 
 

Além de terem optado pelo consumo, o Brasil e a Grécia também têm em comum a dificuldade de ter uma visão de longo prazo?

Sim. Viver apenas o dia de hoje está errado. E, nesse sentido, a Grécia é bem parecida com o Brasil. Eu já trabalhei em um banco alemão e certa vez, no fim da década de 90, tive de defender o Brasil para eles. Expliquei a situação do país para o departamento econômico, na sede do banco.

Após a apresentação, o diretor de pesquisa ficou desconfiado porque eu havia apresentado projeções para até dois anos. Ele queria saber para os próximos dois anos e eu não tinha. Nos anos seguintes, passou a vir ao Brasil uma vez ao ano para acompanhar a economia de perto, com idas ao Banco Central. No final de cinco anos, disse que eu estava certo. Ele demorou a acreditar porque o alemão pensa no longo prazo e planeja os próximos dez anos. Aqui não planejamos nem dois. A economia é indexada e por isso é difícil levar a inflação para a meta. Vivemos dicotomias que deveríamos ter superado. 


Quem perde mais com a saída da Grécia da zona do euro?

Existe uma queda de braço política muito forte. Não é bom para a Europa e para o euro que a Grécia se vá. E nem para a Grécia. O povo não quer sair, mas também não consegue mais cumprir os programas malucos e rígidos de ajuste fiscal. Muita gente fala que a dívida da Grécia é impagável e que não há geração de superávit fiscal para reestruturá-la. Mas o grego tem medo de sair do euro porque é mercado comum.

Muitos jovens vão trabalhar na Alemanha e não querem ficar de fora porque têm vantagens. O dilema é grande. Se a Grécia sai, a analogia é a seguinte: ela é como uma pedra que bate no para-brisa de um carro na estrada, que é o euro. A princípio, ela não quebra o vidro, mas se não for colocada uma vedação, o trinco vai aumentar até arrebentar o para-brisa. A Grécia até pode ter trincado o para-brisa europeu, mas ainda é possível vedar. Se a Grécia sair, o trinco será maior.

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