São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Economia

O aperto continua: Selic sobe pela quinta vez e vai a 13,25% ao ano
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A inflação resistente foi decisiva para o aumento da taxa básica de juros em 0,50 ponto percentual. Alencar Burti, presidente da Facesp e da ACSP, qualificou decisão de equivocada

Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu aumentar a taxa básica de juros da economia em 0,50 ponto percentual (p.p.) - ou seja, a mesma dose de elevação dada em março. A Selic saltou para 13,25% ao ano e teve sua quinta alta consecutiva na reunião desta quarta-feira (29/4).

Apesar da alta da inflação, "a decisão do Copom de elevar novamente a Selic foi equivocada, porque o impacto dos aumentos anteriores da taxa ainda não se fizeram sentir integralmente sobre a economia. Além disso, todos os indicadores da atividade econômica, da produção industrial, das vendas do varejo e do desempenho dos serviços mostram sensível desaceleração”, afirma Alencar Burti, presidente da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo) e da ACSP (Associação Comercial de São Paulo).

Ele chama a atenção para os fatores agravantes e para a situação a que pode chegar a economia brasileira. “O quadro atual é agravado pelo aumento do desemprego, pela redução da renda e pela queda da massa salarial, o que, com a retração do crédito e o alto custo dos financiamentos, pode levar o país a uma recessão prolongada. Esperamos que o Banco Central tenha encerrado o processo de elevação dos juros e que o governo implemente efetivamente o ajuste fiscal com cortes de gastos - e não com aumentos de impostos - para que a economia possa se recuperar mais rapidamente”, finaliza. 

 O percentual de aumento coincidiu exatamente com a expectativa do mercado. Isso porque, de um lado o governo está corrigindo os preços administrados que estavam reprimidos, como o de combustíveis e de energia, que impulsionaram a inflação. De outro, tenta controlar a alta do índice com o remédio amargo dos juros. 

Até agora, a inflação oficial não deu sinais de ter sido domada pelos aumentos da Selic. Em 12 meses até março o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 8,13%.

De acordo com o relatório Focus, o IPCA encerrará 2015 em 8,25%. O patamar ainda está longe do teto da meta estipulado pelo governo de 6,5% e mais longe ainda do centro da meta, que é de 4,5%. O próprio Banco Central assumiu que, nesse processo, o IPCA vai ficar em 7,9% ao ano no final de 2015, segundo o Relatório de Inflação.

Em relatório divulgado na tarde desta quarta-feira (29/4) o FMI (Fundo Monetário Internacional) havia elogiado as medidas de ajuste fiscal e de aperto monetário (aumento de juros) em curso no Brasil.

CHRISTINE LAGARDE, DIRETORA GERAL DO FMI

 

Na reunião de primavera do Fundo, que terminou no último dia 19 em Washington, Christine Lagarde, a diretora-gerente da instituição  elogiara o ajuste na economia e ainda recomendou reformas estruturais no Brasil.

A avaliação é que, mesmo com a elevação das taxas de juros, o BC continua enfrentando a tarefa de reforçar a credibilidade do arcabouço de política monetária, já que a inflação persiste em patamar alto. 

A previsão do FMI é que o IPCA suba 8% este ano, acima da previsão divulgada anteriormente pela instituição de 7,8%. Para 2016, a previsão é de alta de 5,4%, abaixo dos 5,9% do documento anterior.

André Perfeito, economista da Gradual Investimentos, diz acreditar que o aperto deve continuar, até porque a expectativa de inflação para o ano que vem ainda está acima do centro da meta. "Sendo um ano de ajuste, é preferível que suba bastante o juros agora para poder cortar mais no ano que vem", afirma. Ele estima que a Selic chegue a 14,5% até o fim do ano. 

Com a nova alta, a Selic atinge o maior percentual desde janeiro de 2009, quando atingiu 13,75% ao ano. Além de ser um instrumento de controle da inflação, a Selic guia as decisões de investimentos na economia. Essa elevação, desta forma, enfraquece a produção e o consumo e fortalece a tese de uma recessão mais profunda. 

O FMI também admitiu que o Brasil pode ter a pior desaceleração da economia em mais de duas décadas. "Apesar disso, o país terá de ser perseverante com os atuais esforços para conter o aumento da dívida pública e repor a confiança no quadro da política macroeconômica", disse em documento. 

Os economistas do FMI projetam que o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos pelo país) encolha 1% em 2015, um dos piores desempenhos entre as principais economias mundiais. Para 2016, a expectativa é de uma recuperação moderada, com o PIB crescendo 1%.

Para a CNI (Confederação Nacional da Indústria), o aumento da Selic desestimulará ainda mais os investimentos e o consumo das famílias, o que reforça as dificuldades para a retomada da produção da indústria.

A direção da entidade argumenta que o fraco desempenho da economia, a valorização do real frente ao dólar e o ajuste nas contas públicas são suficientes para reduzir as pressões sobre a inflação. "Diante desse quadro, o Banco Central poderia rever a trajetória de aumento dos juros", disse a CNI em nota.

Para a Fecomércio/RJ (Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro), ao elevar a taxa básica de juros da economia, o Banco Central lança mão de mais do mesmo na condução da política monetária.

"Encarecer ainda mais a tomada de financiamentos por parte de consumidores e empresários vai na contramão do quadro exposto pelos principais indicadores de mercado: desemprego em alta, consumo e confiança em baixa, crédito historicamente caro, atividade em queda", diz.

Miguel Ribeiro, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) diz que o aumento da Selic se somará aos demais ajustes que foram repassados ao crédito de empresas e consumidores. 

Ele elaborou uma simulação que mostra que, no caso das empresas, a alta da Selic fará com que a taxa de juros média para capital de giro aumente 0,62 p.p., para 31,99% ao ano. 

Os juros das linhas de desconto de duplicatas, por sua vez, passarão de 38,32% para 38,96%. No caso da conta garantida, a taxa de juros média subirá de 116,29% para 117,27%.

*Com informações de Estadão Conteúdo

Atualizado às 14h49



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