São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Economia

Nos lares das favelas há mais eletrodomésticos e até automóveis
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Mas levantamento do Data Favela também revela que aumento de preços e maior endividamento preocupam as famílias

Em meio ao pessimismo sobre os rumos da economia brasileira, emergem de uma pesquisa dados a se comemorar. Os 12,3 milhões de moradores das favelas brasileiras, que movimentaram cerca de R$ 68,6 bilhões em 2014 (pouco mais do que o PIB de Curitiba), possuem atualmente mais produtos eletroeletrônicos - e até motocicletas e carros- do que em 2013.

Levantamento do Instituto Data Favela, com o apoio do Data Popular e da CUFA (Central Única das Favelas), revela que, atualmente, 75% das moradias das comunidades possuem máquinas de lavar roupas; 67%, TVs de plasma, LED ou LCD; 14%, motos e 24%, automóveis. Em 2013, esses percentuais eram menores: 69%, 46%, 13% e 20%, respectivamente.

Divulgada hoje durante o 2º Fórum Nova Favela Brasileira, a pesquisa, realizada em fevereiro deste ano com 2 mil moradores de 63 favelas localizadas em nove regiões metropolitanas do país e no Distrito Federal, mostra ainda que esses consumidores têm intenção de comprar notebooks, tablets e TVs de plasma nos próximos 12 meses.

 

O ânimo para o consumo em um país em que a inflação não para de subir e o medo do desemprego cresce a cada dia é ainda reflexo do aumento real do salário mínimo e do emprego formal nos últimos anos.

De 2003 a 2014, o salário mínimo teve reajuste nominal de 262%, um aumento real (descontada a inflação, no caso, o INPC) de 72,31%, segundo o Dieese. A taxa de desemprego no país ficou em 5,3% em janeiro deste ano, superior à de janeiro de 2014, de 4,8%, segundo o IBGE.

O empreendedorismo nas comunidades também cresceu nos últimos anos, por necessidade ou por vontade dos moradores de trabalhar por conta própria, gerando mais emprego e renda para as famílias.

Ser dono do próprio negócio é o desejo de quatro em cada dez moradores das favelas brasileiras. E dessas pessoas que pretendem empreender, 55% desejam montar o negócio em até três anos e 63% querem fazê-lo dentro do local onde vivem, segundo a pesquisa do Data Popular.

A vontade de empreender nas favelas brasileiras (40% dos entrevistados) é superior à da média da população brasileira (23%). Boa parte dos futuros empreendedores nas comunidades tem mais de 25 anos, e é casada (50%). Do total, 49% são homens, 51% mulheres e a maioria (73%) é negra ou parda.

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“Os moradores das favelas conseguem comprar hoje bens antes considerados inalcançáveis”, afirma Renato Meirelles, presidente do Data Popular e um dos fundadores do Data Favela.

Mas, até quando este cenário conseguirá se manter? As classes de menor poder aquisitivo correm o risco de perder todas as conquistas dos últimos anos? Essas questões têm tirado o sono dos empresários brasileiros.

E faz sentido. Aquele fôlego que havia para o consumo até alguns anos atrás já não existe mais. Os supermercados já identificaram troca de produtos mais caros por mais baratos, corte de categorias de produtos e queda nas vendas de alimentos básicos. Em recente pesquisa divulgada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), constatou-se que a confiança dos comerciantes na atividade é a mais fraca desde março de 2010.

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Alguns setores da indústria, como o automobilístico, já começaram, neste início de ano, a demitir ou a dar início a programas de demissões voluntárias (PDV) por conta da retração da demanda.

Maio deve ser um dos meses mais críticos do ano para as empresas, na avaliação do sociólogo Rudá Ricci. É quando deve concentrar os aumentos de preços de energia elétrica, combustível, frete, água.

“Os serviços também devem ficar mais caros. Também está previsto para maio aumento de imposto de importação para produtos de beleza e é também o mês de mobilização de algumas categorias profissionais, como professores, garis e motoristas e cobradores de ônibus, para reajustes de salários. Maio, portanto, será um mês pesado”, diz o sociólogo.

CRESCE ENDIVIDAMENTO

O aumento de consumo acabou resultando em um maior endividamento dos consumidores das comunidades, segundo a pesquisa da Data Favela.

Em 2014, 35% das pessoas possuíam dívidas e, em 2013, 27%. E este maior endividamento está concentrado entre as pessoas de 35 a 49 anos – 45% da população das favelas com essa faixa etária têm dívidas.

Ter dívidas, na verdade, pode não ser um mau sinal, se o consumidor tem condições de arcar com elas. Isto é, se a prestação que ele tem a pagar todo o mês está prevista e cabe no seu orçamento.

Um bom sinal, no caso dos consumidores das comunidades, por enquanto, é que a inadimplência superior a 30 dias, de 22%, é a mesma de 2013. Está, portanto, estabilizada, segundo a pesquisa.

A alta da inflação passou a ser uma preocupação. De cada dez moradores, oito a temem. E, quanto menor a renda, maior é o receio da elevação de preços. A pesquisa também identificou que 53% dos entrevustados enfrentam dificuldades para pagaras contas. E, para lidar com essa situação, 86% dos moradores costumam fazer pesquisa de preços.

“Na medida em que cresce o acesso ao crédito, aumenta o endividamento. E as pessoas só conseguem comprar determinados bens por médio de financiamento. Mas mais importante do que o endividamento é saber qual é o comprometimento da renda”, diz Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo.

Para quem ganha cerca de R$ 1.000 ou um pouco mais, geralmente, o varejo considera que o limite máximo de comprometimento da renda com financiamento é de 30%. Agora, para quem ganha R$ 10 mil, na avaliação do economista, este comprometimento pode até ser maior.

“O importante neste momento de maior endividamento das famílias é verificar como elas estão administrando esta situação, até porque o desemprego deve aumentar", afirma Solimeo. "Entendo que o consumidor está sabendo controlar melhor do orçamento, pois hoje ele é bem mais consciente em relação aos seus gastos do que foi no passado. E as instituições financeiras também estão mais cautelosas para liberar o crédito.”

 



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