São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Economia

Inflação: volta à realidade dos preços prossegue
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Tarifaço e alimentos ainda pressionaram a inflação em maio, quando ela deveria desacelerar. Resultado surpreende o mercado e indica aumento na taxa de juros

Os economistas de bancos e consultorias que projetaram a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de maio foram surpreendidos pelo resultado de 0,74%, divulgado nesta quarta-feira (10/06) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Para se ter uma ideia, os analistas que participam do relatório de mercado Focus, do Banco Central, estimavam uma elevação de 0,55% para o mês de maio.

Para 2015, a expectativa do Focus, divulgada na segunda-feira (08/06), era de 8,46% para o IPCA. O resultado do IBGE para os últimos 12 meses até maio mostra que o índice já ultrapassou esse patamar e ficou em 8,47%.

"A volta à realidade dos preços administrados não acabou. No último mês, ainda houve avanço nas tarifas de energia, de água e esgoto e de botijão de gás. Pode ser que algumas dessas tarifas ainda apareçam na inflação de junho", diz Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

Sazonalmente, a inflação é mais comportada no segundo e no terceiro trimestres do ano porque nestes períodos já não há reajuste de preços administrados, nem as mudanças climáticas que ocorrem no início do ano e influenciam os preços de alimentos. 

LEIA MAIS: Alimentos e energia elétrica pressionam a inflação em maio

O economista da ACSP diz que o preço da energia elétrica foi o maior vilão, pois em 12 meses até maio subiu 58,47%. Para Alfieri, a inflação deve persistir alta, em 8,5% em 12 meses acumulados no curto prazo. 

"O pequeno empresário tem de continuar alerta e evitar dívidas, pois a inflação pressionada abre espaço para mais aumentos na taxa de juros, que influenciam o custo dos financiamentos. Além de não se endividar, o empresário deve tomar cuidado com o risco de inadimplência do consumidor e preservar o caixa", afirma. 

Em nota, o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco informou que o resultado surpreendeu não só pelo impacto dos preços administrados mas principalmente pelo do grupo Alimentação e Bebidas, que passou de uma alta de 0,97% em abril para 1,37% em maio. 

O Depec diz que espera que os preços dos alimentos sejam revertidos em maio, favorecendo um recuo do IPCA. "Adicionalmente, mantemos a perspectiva de desaceleração gradual do grupo Serviços (que subiu 0,19% em maio ante 0,72% em abril). Desta forma, projetamos elevação de 8,3% do IPCA em 2015", diz a nota. 

Já a Tendências Consultoria divulgou, por meio de nota, que o resultado de maio veio acima de sua projeção de 0,60% e que, desta forma, fará uma revisão para cima de preços administrados. A consultoria disse que também vai alterar a projeção de inflação para o fim de 2015, que é de 8,3% ao ano. 

Segundo Adriana Molinari, analista da Tendências, a inflação só vai recuar a partir de março de 2016, quando todos os efeitos de reajustes de preços administrados deste ano saírem do cálculo. Além disso, a expectativa é de que a desaceleração da economia reduzirá o consumo e pressionará os preços para baixo.

A elevação de itens básicos aparece em outros índices. O encarecimento dos alimentos in natura e de serviços domésticos também pressionou o Índice de Custo de Vida (ICV) das famílias paulistanas, que subiu 0,57% em maio na comparação com abril. 

O indicador é do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Os grupos Alimentação e Habitação responderam por 93% da alta do mês. No ano, este indicador acumula alta de 6,17% no ano e de 8,82% em 12 meses.

SERVIÇOS RECUAM LENTAMENTE

Um dos componentes do IPCA que subiu menos em maio foi a inflação de serviços. Segundo o IBGE, boa parte do alívio veio da queda de 23,37% nos preços das passagens aéreas.

"As empresas estão fazendo muitas promoções, até por conta da redução do consumo e da renda, que está segurando um pouco. Mas é um item muito volátil, pode ter sido um efeito pontual", diz Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preços do IBGE.

Em 12 meses, contudo, os serviços continuam subindo. A alta média chegou a 8,22% até maio, e a maioria dos itens acumula aumentos superiores a 8% no período.

"Com as ações que estão sendo tomadas, era para que os serviços estivessem cedendo um pouco mais. Mas há outras pressões também, pode ser que o efeito de desaceleração da renda ainda não tenha atingido o setor de serviços. Por outro lado, há um custo maior com energia, com taxa de água e esgoto, com aluguel. Não sabemos até quando o setor de serviços vai conseguir cobrir esses custos ou se vai mostrar algum arrefecimento", afirma. 

Na avaliação de Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), apesar do aumento do desemprego e da tendência de piora do mercado de trabalho, a inflação de serviços ainda será resistente. 

"Estamos observando um aumento do desemprego, e ele deve aumentar aquém do esperado", diz. Ele avalia que a formalização do mercado de trabalho, no entanto, tornará esse processo mais lento, pois o custo da demissão de funcionários é mais alto para as empresas. 

Com isso, em vez de demissão em massa, as firmas deixam de contratar e não repõem os empregados.

O resultado é um aumento mais lento do desemprego, puxado principalmente pelo aumento da população economicamente ativa (PEA) e não tanto pela queda na População Ocupada (PO). 

A consequência disso, segundo Moura, é que a piora do mercado de trabalho se dá mais no campo do rendimento - como reação à crise, as empresas dão reajustes mais modestos, enquanto a inflação corrói os salários.

"O ajuste no mercado de trabalho via salários significa que a gente deve ter a inflação alta persistindo por um tempo maior", diz Moura, lembrando que, em condições normais, uma alta mais rápida no desemprego deveria se traduzir numa redução também mais rápida da inflação de serviços. 

Diante da lentidão no aumento do desemprego, efeitos sobre a inflação de serviços deverão ser sentidos mais para o fim de ano, segundo Moura. 

Com informações de Estadão Conteúdo


 



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