São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Economia

Estagnada, a economia cresceu apenas 0,1% em 2014
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Apesar de percentual positivo, mas próximo de zero, atividade ficou estagnada e só não foi pior por causa do novo cálculo do PIB. Resultado da indústria e do comércio foi negativo

A economia ficou estagnada em 2014, com uma variação de apenas 0,1% do PIB (Produto Interno Bruto) sobre o ano anterior, segundo resultado divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nesta sexta (27/3). Este foi o pior resultado desde 2009, quando a economia caiu 0,2%. 

O PIB de 2014 somou R$ 5,52 trilhões - o indicador corresponde à soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país para o consumo das famílias. A expectativa era de uma queda de 0,1% do PIB de 2014, segundo o Relatório Trimestral de Inflação, divulgado na quinta (26/3) pelo Banco Central. 

Em outras palavras, a queda significa recessão – um quadro que, se não ocorreu no ano passado, e tem mais chances de se concretizar neste ano. A projeção da autoridade monetária é de queda do PIB de 0,5% neste ano. A estimativa ainda é mais otimista do que a dos economistas do relatório de mercado Focus, de recuo de 0,83% para este ano.

O que favorece um quadro mais negativo para este ano é o ajuste fiscal, que deve desacelerar ainda mais a economia. “O Banco Central admitiu que a inflação ficará em 7,9%, acima do centro meta de 4,5% neste ano. E que fará esforços para que fique em 4,9%, convergindo para o centro em 2016. Assim, sinaliza aumento de juros, o que vai implicar em recessão”, afirma Emílio Alfieri, economista da (ACSP) Associação Comercial de São Paulo. No entanto, ele diz que será necessário passar por esse processo para que a economia retome o crescimento.

O que trouxe o PIB para um percentual positivo foi a revisão no cálculo pelo IBGE para os anos de 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014. Para se ter uma ideia, o recálculo do PIB de 2013, levou o indicador a um crescimento de 2,7% ante 2,5% pela conta anterior. O mesmo ocorreu para o resultado de 2012, que passou de crescimento de 1% para 1,8%. 

Isso porque o novo cálculo do indicador incorporou o padrão internacional recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas), OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial que praticamente atualiza e acrescenta dados que refletem as mudanças significativas no consumo das famílias.

A ideia é que o indicador de crescimento do Brasil possa ser comparável ao de outros países. 

“Hoje, por exemplo, existem produtos e serviços que são consumidos pelas famílias que no passado não eram oferecidos e, assim, não entravam no cálculo. Um exemplo é o consumo com telefone celular, que passou a ter maior representatividade no orçamento familiar. Com a inclusão, é natural que o PIB seja maior. Antes todo gasto com pesquisa e desenvolvimento pelas empresas era considerado consumo, quando na verdade é um investimento de longo prazo que gera produtividade e gera riqueza”, diz Otto Nogami, professor de economia do Insper.

Para o governo, o novo cálculo tem duas faces: por um lado melhora a condição da dívida, que é medida em valores absolutos e assim pode ser a mesma ou até menor em proporção a um PIB maior. Por outro, aumentará o esforço de superávit primário (economia do governo para pagar os juros da dívida) que, ao contrário, é definido como um percentual, hoje de 1,2% do PIB. “A diferença no valor do superávit ainda deve ser pequena com o novo cálculo, que deve passar de R$ 66 bilhões para R$ 70 bilhões”, diz Alfieri.

O PIB per capita foi de R$ 27.229 no ano passado e caiu 0,7% na comparação com 2013, quando o crescimento havia sido de 1,8% sobre 2012. O indicador mede o tamanho da economia brasileira em relação à população. 

QUEDA NO COMÉRCIO E FREIO NO CRÉDITO

Segundo o IBGE, no último trimestre de 2014 o PIB cresceu 0,3% na comparação com o trimestre anterior. O resultado mostra que o resultado foi puxado pelos setores de serviços e agropecuária, que cresceram 0,3% e 1,8% respectivamente. Por outro lado, a indústria teve queda de 0,1% na atividade. 

O resultado fechado de 2014 mostra que a lógica foi a mesma: o setor de serviços cresceu 0,7% e a agropecuária, 0,4%, enquanto a indústria teve queda de 1,2%. 

No setor de serviços, o comércio caiu 1,8% e os demais cresceram no ano passado. Os destaques foram os serviços de informação, com alta de 4,6%, atividades imobiliárias (3,3%) e transporte, armazenagem e correio (2%). 

"O comércio que teve resultado negativo foi mais o atacadista, principalmente, porque está ligado à indústria. Em 2014, os serviços mais relacionados com a indústria foram os que tiveram desempenho pior, isso é claro", diz Rebeca Palis, coordenadora das Contas Nacionais no IBGE.

A despesa de consumo das famílias cresceu 0,9%, bem menos do que os 2,9% em 2013. O resultado do consumo das famílias do ano passado foi o pior desde 2003.  Por um lado, segundo o IBGE, a massa salarial dos trabalhadores cresceu 4,1% em termos reais, mas por outro, o crédito para as pessoas físicas cresceu menos na comparação.

O freio no crédito contribuiu para o crescimento menor do consumo das famílias em 2014. 
"A massa salarial continua crescendo. Mas, por outro lado, o crédito específico para pessoa física teve crescimento nominal de 5,8%, então, se você olhar pelo IPCA (de 6,41% em 2014), o crédito não está mais crescendo em termo real", afirma Rebeca.

No setor agropecuário, os destaques foram a produção de soja, que cresceu 5,8%, e a de mandioca (8,8%). No entanto, ambas as culturas apresentaram queda na produtividade. Houve queda no cultivo de cana-de-açúcar (-6,7%), milho (-2,2%), café (-7,3%) e laranja (-8,8%). 

Na indústria, o que puxou o resultado negativo foi a indústria de transformação, que caiu 3,8%. Além disso, construção civil, eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caíram 2,6%.

QUEDA DE IMPOSTOS E INVESTIMENTOS

A queda de 0,3% no volume de impostos em 2014 ante 2013 contribuiu negativamente para o PIB, segundo Rebeca. O valor agregado da economia cresceu 0,2%, mas, com o efeito dos impostos, a taxa de crescimento da economia diminuiu para 0,1%. Isso só havia ocorrido em 2009. 

"Isso ocorreu principalmente por conta do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), ligado diretamente à indústria de transformação, e também por causa do imposto de importações, cujo volume caiu no ano", diz a coordenadora.

Segundo o IBGE, em volume, houve queda de 4,7% do Imposto de Importação e de 1,7% do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). 

A menor arrecadação também está relacionada à queda de 4,4% nas importações no ano passado. As exportações recuaram 10,7% no quarto trimestre do ano passado, o pior resultado para o setor desde o primeiro trimestre de 2009

O investimento produtivo de longo prazo, representado pela Formação Bruta de Capital Fixo, caiu 4,4%, o pior desempenho desde 1999.A taxa de investimento foi de 19,7% do PIB em 2014, menor do que os 20,5% de 2013. A taxa de poupança do país (que totaliza recursos de famílias e governo) também piorou e passou de 17% em 2013 para 15,8% no ano passado. A poupança é uma medida da capacidade de investimento da economia. 

* Com informações de Estadão Conteúdo



Sem considerar a inflação, a soma das riquezas produzidas no país em 2016 deve ser de R$ 6,253 trilhões

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