São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Economia

"É preciso ter um olho no peixe e outro no gato”, diz Mendonça de Barros
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Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, é preciso olhar para a frente com ousadia empresarial, sem esquecer a cautela. O ajuste, segundo ele, deve se prolongar por um ano e meio e dar lugar a um novo ciclo de crescimento

“Não entrem em pânico. O Brasil está em uma fase de criar condições para ter um longo período de investimentos. Mas é preciso também tomar cuidado. Como empresários, devem olhar para a frente com um olho no peixe e outro no gato”.

Foi este o recado que o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, hoje na presidência da Foton Caminhões, transmitiu nesta segunda-feira (27) a uma plateia que representa um setor responsável por abastecer um milhão de pontos de vendas no país ou 52% da distribuição de ítens de mercearia em cinco regiões do Brasil.

Para Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e ex-ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso, o país vive um fim de ciclo do governo do PT e o início de outro que deverá responder a uma mudança da sociedade. Uma sociedade que vai depender muito mais de seu próprio trabalho do que de programas sociais, como o Bolsa Família.

MENDONÇA DE BARROS: FIM DE UM CICLO

 

E essa mudança faz com que o brasileiro perceba que paga muito imposto, sem contrapartidas. “Ou que ele perceba ainda que paga muito imposto e a Petrobras faz o que fez com o dinheiro dele. Portanto, a sociedade vai cobrar do governo racionalidade econômica", disse Mendonça de Barros. "Estranho é que foi o próprio PT que criou isso, essa mudança na sociedade.”

Esse novo ciclo, na avaliação do economista, fará muito bem para o país. “Agora, tem um ajuste na economia que precisa ser feito. Mas toda essa dificuldade que estamos enfrentando é conjuntural. Quando olho para a frente, vejo com otimismo”, disse.

Esse otimismo, segundo ele, está baseado no fato de que a recessão deve durar cerca de um ano e meio, o período em que se prolongará o ajuste. A inflação em 2016, projeta ele, deve ficar entre 4,5% e 5%. “O mercado está aí, vai voltar a crescer”.

Para um grupo de empresários do setor de atacado, que faturou no ano passado cerca R$ 212 bilhões, foi uma injeção de ânimo, pois minutos antes, a ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados) havia divulgado uma queda de 9,76% no faturamento real do setor no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado. Em 2014, o resultado foi positivo, com aumento de vendas de 0,9% sobre 2013.

Em março, porém, veio um alívio, houve recuperação nos negócios. O faturamento real dos atacados, de acordo com a ABAD, cresceu 14,2% em relação a fevereiro. Na comparação com março do ano passado, considerado um bom período de vendas, foi negativo: queda de 1,2%.

Para José do Egito Frota Lopes Filho, presidente da ABAD, como março foi um mês com melhor desempenho em relação aos dois meses anteriores, os atacadistas prevêem que o faturamento real do setor deve crescer pelo menos 1,5% neste ano. Para isso, várias ações estão sendo tomadas no sentido de parcerias com os fornecedores (as indústrias) e clientes (os lojistas).

Tudo porque o consumidor está muito mais cauteloso. Levantamento da Nielsen mostra que, em 2013, a classe C gastava 15% mais do que ganhava. Em 2014, este percentual caiu para 2,9%. Traduzindo: de uma renda de R$ 3.414 mensais, as famílias consumiam R$ 3.495. “E essa tendência é diminuir mais”, diz Olegário Araújo, diretor de Atendimento ao Varejo da Nielsen.

Alguns atacadistas, segundo o presidente da ABAD, também estudam a possibilidade de fazer entregas conjuntas para os comerciantes, uma forma de reduzir o custo logístico da operação. Existe também um esforço para entender exatamente o que o consumidor deseja, seja no que diz respeito ao tamanho de embalagens, como às novas categorias de produtos. Tudo para que o ano não se encerre com faturamento real negativo.

Outros pontos da palestra de Mendonça de Barros:

AJUSTE ECONÔMICO

"Existe um ajuste na economia que precisa ser feito e, portanto, vamos passar por um período de dificuldades. O ajuste era para ter sido feito há três ou quatro anos, mas a presidente Dilma não fez e vai fazer agora. E toda a terapia que não é feita no momento certo é mais dolorida, é mais difícil de tocar, que é o nosso caso.

Estamos vivendo, portanto, um momento de terapia recessiva.  Mas esta dificuldade será conjuntural. Nós devemos ter um ano e meio de recessão e a inflação, no ano que vem, vai convergir para algo entre 4,5% e 5%, e a economia vai voltar a crescer. O consumidor enxugou um pouco a atividade, que vai voltar a crescer."

ATIVO

"O Brasil desenvolveu, nos últimos anos, um ativo extraordinário com a sociedade. Evidentemente que vocês (do setor atacadista) que estão no dia-a-dia comprando, vendendo e tomando decisões, não têm cabeça para olhar o que está acontecendo tão de perto. Eu, como estou meio aposentado (na Foton tenho uma boa turma para trabalhar e fico lá dando palpites), tenho obrigação de olhar isso e, mais do que isso, de passar para vocês o seguinte: não entrem em pânico, pois o Brasil está em fase de criar condições para ter um longo período de investimento".

EXEMPLO DE QUEM ENTROU EM PÂNICO

"Não faça besteira. Fui testemunha de uma das maiores burrices que já vi um empresário fazer. Aconteceu em 1988, 1989 quando a família proprietária da Brahma entrou em pânico e vendeu a cervejaria por US$ 50 milhões e acabou recebendo só US$ 25 milhões.

Por que? Porque o ágio do dólar no mercado paralelo estava em 100%, e a família mandou o dinheiro para fora. Por que isso aconteceu? Porque a família achou que o Brasil estava indo para o precipício, e não estava, como não está agora. O Brasil é formado por uma sociedade que, em certos momentos, deixa as pessoas preocupadas.

Vou dar um exemplo. Agora mesmo acabaram de votar no Senado o projeto para o voto distrital. Esse é um projeto de 20 anos atrás, mas por que está voltando agora? O político é esperto. Está voltando agora porque a sociedade brasileira está caminhando para esta direção e, neste momento, dá para ter o voto distrital. Quero chamar a atenção de vocês para mostrar que essa transição nos levará certamente para uma sociedade e uma economia mais forte. E um empresário eficiente, consciente, vai saber muito bem o que fazer".

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