Economia

Crise chega a setores até então resistentes, como as farmácias


O aprofundamento da recessão econômica leva para dois dígitos os indicadores negativos da economia - como a inflação e a queda nas vendas em ramos de negócios que se mantinham imunes


  Por Rejane Tamoto 30 de Outubro de 2015 às 00:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Se a dor de cabeça causada pela recessão, que atinge emprego, renda e poder de compra ainda mantinha as vendas das farmácias no azul, agora ela pode estar sendo enfrentada pelo consumidor sem analgésicos.

Na passagem de agosto para setembro, as vendas no varejo farmacêutico caíram 11%. Na comparação com setembro do ano passado, o avanço nas vendas ainda ficou positivo em 2%. 

"O consumidor está segurando os gastos para o fim de ano e comprando apenas os remédios de que realmente necessita", disse um representante do setor, em almo que reuniu ontem empresários, economistas e dirigentes de entidades do comércio, indústria, varejo e agronegócio, na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

O aprofundamento da crise transparece em outros números que chegam aos dois dígitos, como a perda do poder de compra da população pelo aumento da inflação. Para ter uma ideia, o IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado) rompeu a marca de 10% em 12 meses encerrados em outubro.

A prévia do índice oficial, o IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), caminha para esse patamar, ao acumular 9,77% em 12 meses até outubro.

Com isso, a massa de rendimentos real (descontada a inflação) dos trabalhadores encolheu 6,1% --patamar recorde desde janeiro de 2006. O desemprego contribui para detonar a confiança do consumidor, atingindo uma taxa de 7,6% em setembro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Se o dinheiro para consumir bens rotineiros encurtou, o crédito ao consumidor também desacelerou para um crescimento de 4% em 12 meses até setembro. Se descontada a inflação, o que houve na verdade foi uma queda real do crédito de 5,26%. 

"Há um enfraquecimento de demanda e de oferta de crédito, o que é um sintoma da situação econômica ruim", disse um representante do setor financeiro. 

A avaliação é que os agentes financeiros devem se resguardar e elevar as taxas de juros em linhas de financiamento de veículos e imobiliário.

O comportamento vem de uma perspectiva negativa para a inflação, renda e aumento de impostos, que devem pressionar o orçamento de consumidores e sinalizar o aumento da inadimplência. 

"Além disso, os bancos passarão a pagar uma Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) maior. Passou de 15% para 20% e essa elevação será transferida de alguma forma para as taxas de juros", afirmou. 

Outro segmento financeiro que começa a apresentar sinais de desaceleração é o de transações com cartões. Um representante de empresa do setor disse que a queda nominal (sem considerar a inflação) atingiu 3,4% nessas operações em setembro, na comparação com igual mês de 2014. Na comparação entre os trimestres, a retração foi de 2,7%.  

"No trimestre, cresceram operações de consumo de bens não duráveis, como drogarias, hipermercado e supermercados. O resto todo foi para baixo, como materiais de construção e eletrodomésticos e isso ocorreu pela dependência que esses setores têm do crédito", disse o representante.   

CENÁRIO NEGATIVO JÁ COBRIA INDÚSTRIA E COMÉRCIO

Os setores até então fortes na crise, como o farmacêutico e financeiro, passam a ver os sinais mais intensos da recessão. No entanto, os números negativos já estavam há mais tempo na indústria, que acumula contração de 5,7% em 12 meses encerrados em agosto.

As vendas do varejo seguiam a mesma toada: com queda de 5,7% no comércio a prazo e à vista na primeira quinzena de outubro. 

Como os lojistas não estão fazendo estoques, os fabricantes de embalagens para a indústria já viram o faturamento cair 30% em setembro ante igual mês do ano passado.

"Esperávamos incremento no Natal, mas ainda não houve reação da indústria de móveis e eletrodomésticos. As perspectivas para dezembro e janeiro são preocupantes", disse um empresário do setor. 

Outro representante do segmento de embalagem  para artigos de higiene, como sabão em pó e creme dental, também reportou uma redução de 5% nas vendas no mesmo intervalo. "Nunca havia visto um número tão negativo. Com a economia de água, diminuiu o consumo de sabão em pó", afirmou. 

DOMINÂNCIA POLÍTICA

O consenso entre os empresários é de que a economia segue paralisada por causa do nó na política. "Muitos se apegam à ideia de impeachment da presidente como a solução, mas não há argumento jurídico forte para isso", disse um dos participantes. 

A perda do controle das contas públicas, expressada por um rombo que pode chegar até R$ 113 bilhões neste ano, é muito séria e não tem sido tratada como tal pelo governo, tampouco pelo Congresso.

Isso agrava não só a crise pela qual a economia passa, como também a atividade produtiva, caso a solução venha apenas por meio de aumento de impostos, como a CPMF, PIS e Cofins.  

Economistas, acadêmicos, sobretudo, dizem que o país passa por uma dominância fiscal - um ponto no qual os aumentos de juros já não são capazes de conter a inflação - em um cenário no qual o dólar valorizado pressiona os índices de preços e o rombo nas contas do governo aumenta, deixando o Banco Central de mãos atadas. 

Talvez mais do que uma dominância fiscal, o país passe hoje pela dominância política, como salientou um dos economistas presentes. Nesse caso, ela poderia ser entendida como a extrema dependência da recuperação da economia ao fim da crise política em Brasília. 

A sensação dos empresários, economistas e dirigentes que participaram da reunião é de que o sistema político está disfuncional, com boa parte dos deputados no Congresso concentrada demais em interesses próprios - e nos da base aliada - e menos em discutir soluções para a retomada da economia. 

Para as empresas, a saída é sobreviver e usar de toda criatividade possível nesse cenário. "A certeza é que quem sobreviver se sairá muito melhor no pós-crise", avaliou um consultor.