São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Economia

Brasil: atropelado pela ineficiência, burocracia e corrupção
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O país figura entre os piores no ranking da competitividade global do IMD. O fraco desempenho econômico prejudica a produtividade das empresas, entre as mais baixas do mundo

O Brasil continua a perder espaço na economia mundial pelo quinto ano consecutivo. É o que revela o Índice de Competitividade divulgado nesta quarta-feira, 27, pelo International Institute for Management Development (IMD). O país recuou duas posições em relação ao levantamento do ano passado, deslocado para a 56° colocação entre 61 países cotejados no ranking da competitividade global.

É a pior classificação desde 1996, quando o Brasil foi incluído no World Competitiveness Yearbook, anuário da escola de negócios suíça IMD publicado desde 1989.

A queda da competitividade brasileira está diretamente atrelada ao fraco desempenho da economia nos últimos anos que, por tabela, tem prejudicado o desempenho das empresas no país. Pela medição do IMD, o indicador de eficiência empresarial do Brasil recuou cinco posições (passando da 46° posição para a 51°) --a maior queda desde 2010.

Segundo o professor Carlos Arruda, coordenador do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, as empresas brasileiras estão imersas em um ambiente permeado por um sistema tributário complexo, leis trabalhistas defasadas, infraestrutura precária e mão-de-obra pouco qualificada. São problemas que causam um impacto ainda mais nocivo para as companhias em um momento de desaceleração da economia.

O resultado "dramático" da pesquisa, na avaliação do professor, é o fato de o Brasil ter obtido um resultado pior nos critérios em que vinha se saindo bem. "Caíram o desempenho doméstico e o emprego", afirma o professor da Dom Cabral, instituição parceira do IMD no anuário.

 No subindicador "Economia Doméstica", o Brasil caiu sete degraus de 2014 para 2015, fixado na 43ª posição. Em "Emprego", despencou 15 degraus, passando da 6ª para a 21ª posição.

"O Brasil está repetindo a Argentina dos anos de 1990”, diz Arruda. Vale lembrar que na década de 1990 a Argentina era uma das economias mais competitivas da América do Sul, e aparecia no índice do IMD atrás apenas do Chile, que se mantém em primeiro até hoje.

A Argentina apareceu nessa última medição do IMD na 59° posição. “O que presenciamos atualmente é o final do processo de desindustrialização da Argentina, que iniciou com erros do governo Menem. Já os empresários brasileiros estão começando a sentir agora os erros de cinco anos atrás”, diz Arruda.

VAREJO
Em sua avaliação, o setor do varejo é o que mais tem sentido os efeitos do ambiente ruim para se fazer negócios. “Mais da metade das grandes redes de varejo passam por dificuldades”, diz Arruda.

Segundo ele, nos últimos 15 anos o varejo se beneficiou do aumento do poder de compra do consumidor, e acabou se descuidando. “Falta uma gestão mais sofisticada para os negócios”, afirma.

De maneira mais ampla, o levantamento do IMD mostra que essa é a realidade das empresas brasileiras, independentemente do setor de atuação. Na passagem de 2014 para 2015, o índice que mede as práticas gerenciais das empresas brasileiras recuou 13 posições, passando da 36° para a 49°.

A produtividade das empresas do país também é uma das mais baixas do mundo, de acordo com o levantamento do IMD. Nesse quesito, o Brasil se coloca no 59° lugar, à frente apenas da África do Sul e Venezuela.

O IMD informa no levantamento que o baixo nível de produtividade das empresas brasileiras é reflexo da dificuldade que o país enfrenta em investir em ações capazes de sustentar processo de crescimento produtivo no longo prazo.

“No cenário atual, em que os índices de desemprego estão em patamares historicamente baixos e, consequentemente, falta mão-de-obra, aumentar a produtividade torna-se fundamental para que a capacidade competitiva do país volte a crescer no cenário internacional”, conclui o levantamento.

 

ENTRE OS PIORES

O mais grave é que menos competitivos que o Brasil na lista do IMD estão países em situação econômica, política e internacional muito pior do que a brasileira, exibindo conflitos domésticos ou externos de repercussão muito mais abrangente.

"Abaixo (no ranking), estão países com uma situação muito mais dramática que a do Brasil. Comparar o Brasil com a Ucrânia é brincadeira", afirma Carlos Primo Braga, professor da escola de negócios suíça IMD.

Ao cair para 56° posição no ranking o Brasil apenas se mostra mais competitivo que Mongólia, Croácia, Argentina, Ucrânia e Venezuela.

Os Estados Unidos continuam no topo do ranking em 2015, resultado da eficiência nos negócios e do setor financeiro, capacidade de inovação e infraestrutura. Hong Kong (2º) e Cingapura (3º) superaram a Suíça, deslocada para o quarto lugar.

Assim como o Brasil, a América Latina também apresentou um padrão de declínio neste ano. O Chile saiu de 31º para 35º, o Peru de 50º para 54º, a Argentina (59º) caiu uma posição, a Colômbia permanece em 51º e a Venezuela mais uma vez fecha a tabela.

GOVERNO E TRANSPARÊNCIA

O fator 'Eficiência do Governo', que analisa o impacto do ambiente político, institucional e regulatório na capacidade competitiva das nações, é historicamente o ponto mais crítico para a competitividade do Brasil.

Desde 2011, o país figura entre as cinco piores nações neste fator e, no ranking deste ano, apresentou uma queda de duas posições, chegando ao 60o lugar, à frente apenas da Argentina.

“Não há uma agenda de longo prazo para o país", afirma Arruda. "O que temos são iniciativas pontuais, como o Pré-Sal, que hoje perde força pelo baixo preço do petróleo e os problemas da Petrobras. Ou a questão energética, que virou prioridade com a falta de chuva. Mas são sempre ações pontuais.”

Outro motivo para a queda no ranking é a péssima percepção sobre a transparência do governo registrada nas pesquisas de opinião feitas entre março e abril. "No quesito subornos e corrupção (um componente do subindicador 'Estrutura Institucional'), o Brasil figura vergonhosamente na última posição entre os 61 países analisados", afirmam os pesquisadores no sumário executivo do anuário.

Significa que o país obteve uma nota pior que Rússia, Cazaquistão, África do Sul e todos os outros 57 países pesquisados no critério da transparência.

*Com informações de Estadão Conteúdo



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