São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Economia

Alta do dólar aflige o mercado de importados
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Com o encarecimento dos produtos, a Associação Brasileira de Importadores de Bens de Consumo (Abcon) já projeta a pior queda de vendas nos últimos dez anos

Seja nos supermercados, nos shoppings ou no comércio de rua, comprar importados vai ficar mais caro daqui para frente. A alta do dólar já faz alguns lojistas repensarem a oferta desses produtos em seus negócios.

Com a cotação já bem próxima a R$ 3,20 e sem sinal de mudança nesse patamar, a opção é a de repassar o aumento da taxa de câmbio ao preço ao consumidor. Optar pela indústria nacional para a substituição de alguns itens também pode ser uma opção.

O cenário já faz a Abcon (Associação Brasileira dos Importadores de Bens de Consumo) prever a pior crise no setor em dez anos.

Gustavo Dedivitis, presidente da Abcon, diz que os sucessivos processos de investigação de dumping movido por parte das empresas nacionais contra importadores também contribuem para as perspectivas negativas deste ano.

"A queda no faturamento do setor de importados vem ocorrendo de forma muito mais acelerada do que da economia como um todo."

SETOR DE IMPORTADOS DE BENS DE CONSUMO ESTÁ EM QUEDA DESDE 2012

Para Dedivitis, os preços dos importados já subiram cerca de 30% para os lojistas e devem chegar aos consumidores com pelo menos mais 40% em relação ao ano passado.

“Desde 2014, o mercado está instável, sem giro, e o consumidor, sem dinheiro. A alta do dólar veio atrapalhar de vez tudo o que estávamos sentido. Os importadores não tiveram tempo para se programar.”

Há 14 anos no mercado de importação, Dedivitis diz que já passou por outras crises e garante nunca ter visto nada igual.

Em 2002, por exemplo, ele recorda que o dólar chegou a R$4, e ainda assim o mercado se adequou. “Hoje, temos menos oportunidades e mais dificuldades”, diz.

“A perspectiva é negativa e só deve melhorar no segundo semestre de 2016, se o Brasil receber investimentos externos, e se a confiança dos empresários aumentar, porque hoje, eles estão completamente parados.” 

Desde 2012, o setor de bens de consumo registra quedas sucessivas no faturamento anual. Foram R$ 15 bilhões em 2012; R$ 11 bilhões, em 2013; e R$ 9 bilhões em 2014. Sem opções de produtos importados a baixos preços, Dedivitis acredita que os consumidores encontrarão forte alta nos similares nacionais nas lojas ao longo do ano.
 
“Um jogo de jantar, que em dezembro custava cerca de R$ 300,00, hoje não é encontrado por menos de R$ 500,00. Além da alta do dólar, muitos produtos como talheres, porcelanas, cerâmica, vidros de mesa, sofreram sobretaxas que variaram entre 40% a 600%.”

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MARCAS NACIONAIS DE QUALIDADE

Os importados representam 30% do portfólio da Arpège, que possui seis lojas e trabalha com presentes e utilidades domésticas. Ester Fraga, proprietária da marca, ainda aguarda a inflação dos importadores com que trabalha.

ESTER, DA ARPÈGE: "ESPERO O REAJUSTE DOS IMPORTADOS"/PAULO PAMPOLIN/HYPE

“Na verdade, houve um aumento geral de preços. Sobre os importados acredito que terei surpresas na próxima compra, porque os importadores ainda estavam trabalhando com o estoque.”

Ester ainda busca soluções caso a alta dos preços se confirme. No seu caso, a substituição por produtos nacionais fica um tanto limitada. Como exemplo, ela cita os cristais da marca Bohemia, sediada na República Tcheca, que hoje não poderiam ser substituídos por nenhum produto nacional.  

Já no campo das porcelanas, vidros e cerâmicas, Ester se preocupa com a possibilidade de marcas nacionais de qualidade, como Oxford, Nadir, Tramontina e Schmidt elevarem ainda mais seus preços por conta da competitividade.

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MERCADÃO TAMBÉM IMPORTA

Além de trazer para a capital uma infinidade de frutas de outras regiões do Brasil, o Mercado Municipal de São Paulo também é famoso por suas frutas, carnes, queijos e temperos importados. 

A barraca Sweet Fruits vendia o quilo da cereja a R$ 50 na semana do Natal, época em que as frutas são vendidas por valores bem mais altos. Em outros períodos, o preço caia para R$40.

No entanto, desde janeiro, o quilo da fruta que vem da Califórnia, nos Estados Unidos, só tem subido, e hoje é vendida por R$80. Também no Mercadão, o empório árabe Tio Ali teve que repassar a conta para os clientes em até 70%.

O QUILO DA CEREJA SUBIU PARA R$80 NO MERCADÃO/DC

O pistache que custava R$48, agora é encontrado por R$160 o quilo.  Amêndoas, nozes, azeites, temperos e alguns embutidos seguem no mesmo caminho.

“Quem comprava 100 caixas de pistache, agora quer só 50. O mercado está tendo uma forte recaída, e os clientes não param de reclamar”, diz Elias Batista, 35 anos, gerente do Tio Ali. 

 No Box ao lado, um grupo de turistas reclamava do preço do queijo francês roquefort – R$ 160 o quilo (antes era R$90). Como alternativa, um dos funcionários ofereceu a opção nacional por R$32 o quilo.

“Estamos trabalhando assim, comprando menos do importado e oferecendo os nacionais. Aí fica a critério do cliente, que na maioria das vezes, opta pela substituição”, diz Emanuel Macedo, 48 anos, funcionário da Levi Queijos. 

IMPORTADORES RECLAMAM

Assim como os lojistas, os importadores também estão inseguros. Ronaldo Pimenta, 57 anos, é importador desde 1996 e também reclama da oscilação do dólar.

A competitividade com o mercado nacional, o clima de recessão e os índices de desemprego inseriram Pimenta em um cenário desmotivador. De todo o estoque de brinquedos e utensílios domésticos importados que deveriam ter acabado há pelo menos um mês, ainda restam 25% em seu depósito.

Para Pimenta, pior que a alta é a oscilação da moeda, que segundo ele, paralisa os lojistas. 

"A variação está muito grande toda semana, e isso congela os planos dos empresários. Todos preferem se manter conservadores, e com a oferta menor, sem dúvida, virão os rejaustes. Isso acaba criando uma cadeia de prejuízos - para o importador porque perde em volume de encomendas, para o lojista porque vende menos, e para o consumidor, que paga mais caro." 

*Foto: Antônio Milena/Estadão Conteúdo



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A retomada estará atrelada ao atual patamar de câmbio, com o dólar mais acomodado em cerca de R$ 3,20, depois de bater os R$ 4 no início do ano.

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