São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Economia

A difícil batalha contra a inflação de 9% em 2015
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Nova projeção divulgada pelo Banco Central abre espaço para aumento de juros. Economista diz que dosagem do "remédio" precisa ser reavaliada

A inflação não para de trazer surpresas negativas. E a prova disso é que o Banco Central (BC) revisou para cima a estimativa para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial) ao final deste ano. 

A projeção é que o índice encerre 2015 em 9%, segundo o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado nesta quarta-feira (24/06). Para se ter uma ideia, a estimativa do documento anterior, de março, era de 7,9%. 

Assim, o índice ficará acima do centro da meta de 4,5% e também do teto de 6,5% ao ano.

Com isso, a equipe liderada pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, terá de escrever, após o resultado de 2015, uma carta ao ministro da Fazenda explicando os motivos que levaram a instituição a não cumprir sua tarefa, bem como dar indicações sobre o que fará para reverter o quadro de descontrole dos preços.

O BC tem dito que sua missão é combater os efeitos secundários da alta da inflação deste ano. O objetivo é evitar a transmissão dos preços altos para 2016 por meio de um efeito chamado de inércia (repasse da inflação passada). 

A promessa do BC é entregar a inflação na meta de 4,5% no fim de 2016. Apesar disso, a projeção que consta no relatório de inflação é de 4,8% no fim do próximo ano, o que leva a crer que o IPCA só voltará ao centro da meta de 4,5% na metade de 2017. 

As estimativas serão fundamentais para os analistas do setor privado calibrarem suas previsões para a taxa Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), marcada para o final de julho. 

A dúvida é sobre se o BC manterá o ritmo de alta de 0,50 ponto percentual (p.p.), como nos últimos meses, ou se já está se aproximando do fim do ciclo de aperto monetário.

Desde outubro, o Comitê opta por elevar a taxa básica de juros ininterruptamente. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano.

Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, lembra que a inflação resistente deste ano é gerada por custos e não por demanda (quando o consumo em alta faz os preços subirem). Assim, diz ele, não deve ser corrigida apenas com o aumento na taxa de juros. 

"O rigor do Banco Central na linha ortodoxa para conter a inflação (ao continuar aumentando os juros) deve ser seguida pelo governo, que precisa cortar os gastos. O ajuste fiscal até agora só teve corte de benefícios a consumidores e empresas, e aumento nos custos, que foram somados aos juros altos. Só sufoca quem está embaixo", diz Solimeo. 

Em relatório, o BC voltou a chamar a atenção para que a política monetária se mantenha vigilante, já que os avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes.

O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco (Depec-Bradesco) diz que o relatório sugere que haverá mais um aumento na taxa de juros em julho.

"Por outro lado, o documento descarta exageros nessa fase final de ajuste do ciclo, na medida em que suas projeções de inflação para o próximo ano vêm convergindo em direção à meta de 4,5%. Com isso, reforçamos nossa expectativa de que a autoridade monetária encerrará o processo de aumento da taxa Selic em 14,25%, com mais uma alta de 0,50 pp.", afirma o relatório do Depec-Bradesco. 

A consultoria britânica Capital Economics diz que o relatório deixa claro mais aumentos na taxa de juros. A estimativa é de aumento de 0,50 p.p. em julho e uma última elevação, de 0,25 p.p. em setembro.

"O RTI dá a mais clara indicação até agora de que as autoridades acreditam que ainda têm mais trabalho a fazer no combate à inflação", diz o relatório assinado por Neil Shearing, economista-chefe para mercados emergentes. 

Segundo ele, a conclusão do relatório é a de que, apesar da deterioração na atividade econômica, o foco continua firme no combate à inflação. 

Com mais apertos monetários, o BC assume que a queda do PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços produzidos pelo país) será ainda maior: de 1,1%, ante projeção de março de um recuo de 0,5%. 

"Observamos ainda baixo dinamismo da produção industrial e serviços, mas temos notícia mais positiva da safra agrícola e da maior moderação de importações, que responde ao nosso ciclo de negócios. Temos uma moderação no consumo das famílias, uma contração do investimento por meio da FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo) e temos, sim, retomada modesta na estabilização das exportações", disse Luiz Pereira Awazu da Silva, diretor de Política Econômica do Banco Central em coletiva de imprensa. 

O QUE DEVE MANTER A INFLAÇÃO FORTE

O documento do Banco Central diz que a propagação da inflação neste ano será maior nos preços do setor de produtos industriais e mais baixa nos de preços administrados. No entanto, os aumentos dos preços administrados são consideráveis e contaminam todos os setores. 

No estudo, o BC chama a atenção para o fato de que o grau de persistência é uma característica relevante para a determinação da dinâmica da taxa de inflação. 

Apontados como os principais vilões da inflação no curto prazo, os preços administrados devem ter alta de 13,7% neste ano, segundo o estudo. A previsão do RTI anterior, de março, era de 11%.

Para chegar a esses percentuais, o BC considerou a hipótese de variação de 9,3% do preço da gasolina, de 4,3% para o preço do botijão de gás e de 3% nas tarifas de telefonia fixa. Em relação aos reajustes das tarifas de energia elétrica, o BC projeta uma variação de 43,3% para 2015. 

No entanto, o documento do Banco Central diz que a alta desses preços se propaga para todos os demais setores, mas apesar disso eles tem menor propagação de alta no IPCA como um todo. 

"A inflação apresenta-se mais concentrada em setores de propagação mais baixa, sugerindo assim um menor grau de persistência da inflação corrente devido à sua distribuição setorial", destaca o estudo do BC.

Os preços administrados são menos sensíveis às condições de mercado, uma vez que são estabelecidos por contrato ou por regra definida por órgão público ou por agência reguladora. 

Tony Volpon, diretor de Assuntos Internacionais do BC, já havia chamado atenção para a inércia inflacionária em palestra a investidores em Londres. No evento, Volpon sugeriu que a inércia esperada pelo mercado estaria superestimada.

Awazu disse que será preciso ter paciência e perseverança e perseverança para o BC atuar de maneira independente.

Sobre os riscos que ainda existem para impedir que a inflação elevada em 2015 se transmita para 2016, Awazu disse que é preciso estar "muito atento". 

Awazu lembrou que a inflação do setor de serviços ainda mostra uma relativa resiliência. Ele afirmou ser uma característica da economia brasileira a indexação de preços. "Ainda existem riscos por conta como a nossa economia faz indexações e reposições salariais acima da produtividade", disse.

*Com Estadão Conteúdo

Foto: Thinkstock

 

 



Porém, no acumulado do ano, o valor supera o registrado em 2015. A informação é do Dieese, que diz que o salário mínimo necessário para suprir as necessidades das famílias seria R$ 3.940

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