Economia

"A recuperação da economia virá pelo consumo"


É o que afirma o economista Paulo Gala (foto), presidente da Fator Administração de Recursos. Para ele, o país ainda vive ressaca da recessão, mas já saiu da UTI


  Por Rejane Tamoto 31 de Agosto de 2017 às 19:45

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


A economia brasileira é como um paciente que ficou internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) com o fígado comprometido e que agora está de ressaca, à espera da alta hospitalar.

É certo que ele vai se recuperar, mas não se sabe exatamente quando: se em seis meses, um ano ou cinco anos.

A metáfora foi utilizada pelo economista Paulo Gala, presidente da Fator Administração de Recursos, gestora do banco de mesmo nome, para traçar um diagnóstico da economia nacional a empresários, na reunião mensal do Comitê de Avaliação da Conjuntura Econômica da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Segundo ele, o tombo foi tão profundo que a reação é certa.

“Se aprovadas as reformas necessárias, como a da Previdência, o processo de recuperação se acelera. O que sabemos é que a economia vai se recuperar de qualquer jeito.”

Segundo afirma, a recuperação deverá ser liderada pelo consumo, já que o investimento não reagiu da forma esperada devido à elevada ociosidade na capacidade instalada da indústria. “Com a ociosidade, os empresários ainda não têm vontade de investir em novas unidades.”

A inflação controlada e a trajetória de queda da taxa básica de juros Selic são, a seu ver, os indicadores positivos  que apontam para a retomada, ainda que lenta, da atividade.

A projeção para a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é de 3,5% no final deste ano e de 4,25% em 2018. Com isso, o mercado já vislumbra a volta da taxa de juros para o patamar de 7,5% ao ano.

O recuo da taxa de desemprego divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 13,6% no primeiro trimestre para 12,8% no segundo trimestre, conforme divulgado nesta quinta-feira (31/08), também reforça a boa expectativa.

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CONSUMO VIRÁ COM A RECUPERAÇÃO DA CONFIANÇA, DIZ GALA

“Com a recuperação gradual da confiança, virá uma relativa segurança que possibilitará a volta do consumo.”

A projeção de crescimento do PIB para este ano é de 0,5% ante 2% em  2018. “A volta do consumo permitirá o crescimento da arrecadação, o que melhorará as contas públicas”, diz Gala.

Enquanto a atividade econômica reage lentamente e o setor externo está equilibrado, com o crescimento de exportações na comparação com as importações, o que ainda desperta preocupação, de acordo com o economista é o lado fiscal.

Ele avalia que será necessária a retomada da atividade econômica para ajudar a colocar as contas públicas nos trilhos, já que o efeito de uma reforma da Previdência sobre elas só poderia ser observado em cinco anos. 

Será preciso que a atividade econômica volte a se acelerar para reduzir o tamanho do rombo das contas do governo. “Ou então será necessário aumento de impostos ou corte de gastos.”

A CRISE E A BOLHA DE CRÉDITO

Para Gala, a crise na qual o país mergulhou foi causada por uma bolha de crédito decorrente da política expansionista adotada em 2008.

“A proporção do crédito sobre o PIB (Produto Interno Bruto) triplicou de 2002 a 2015, passando de 20% para quase 60%.”

Na avaliação de Gala, o boom do crédito ocorreu em um período em que a taxa de juros era muito elevada, gerando dívidas difíceis de serem pagas.

“Seguiu-se, então, uma política expansionista baixando a Selic para 7,25%. Depois a taxa foi dobrada para segurar a inflação. Foi uma pancada em uma bolha que estava desinflando.”

Segundo ele, essa expansão rápida do crédito gerou uma explosão na produção da indústria, com destaque para veículos. “As vendas chegaram a ser de 350 mil veículos por mês em 2012 e hoje essa quantidade é menor do que 200 mil.”

O mesmo ocorreu com outros setores. Houve excesso de inaugurações de shopping centers e até no consumo de energia elétrica. O que os gráficos de confiança mostram agora, de acordo com ele, é uma recuperação gradual da confiança e dos indicadores.

 FOTOS: Rejane Tamoto e Fátima Fernandes/Diário do Comércio