Economia

A economia "descolou" da política? Mais ou menos


A profunda crise de credibilidade em que mergulhou o presidente Temer não teve como reflexo automático um colapso dos mercados


  Por João Batista Natali 30 de Junho de 2017 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A previsão de uma suceessão de tragédias na economia não está se confirmando. Seria um tanto óbvio acreditar que o dólar e o índice Bovespa enfrentassem fortes turbulências depois de 17 de maio, quando se tornou conhecida a gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e o corruptor Joesley Batista.

Mas não foi o que aconteceu. No primeiro momento, a moeda americana pulou para de R$ 3,04 para R$ 3,39. Mas em seguida se acomodou em patamares mais sensatos, pouco acima de R$ 3,30, apesar da sucessão de notícias ruins no campo da política, em que a cereja do bolo foi a denúncia formal de Temer por corrupção, em investigações chefiadas pela Procuradoria Geral da República.

O envolvimento do presidente com o grupo JBS também afetou o mercado de ações, que é outro termômetro das oscilações da temperatura do mercado. Houve de imediato uma queda acentuada de mais de 10%. O índice Bovespa estava em 67.540 pontos no pregão do dia 17 de maio. Chegou ao "fundo do poço" no dia 21 de junho, com 60 mil pontos, mas depois estacionou em torno de 62 mil.

Comparemos com recentes tempestades. Em outubro de 2007, com a quebra do Lehman Brothers - ela se consumaria só no ano seguinte - e com a subsequente crise financeira mundial, as bolsas chegaram a perder para mais da metade do valor dos títulos negociados. No plano brasileiro, esse colapso não ocorreu.

Se as ações ordinárias da Petrobras chegaram a valer R$ 57 reais no início de 2007 e valiam apenas R$ 4 reais durante o período moribundo do governo Dilma Rousseff, é porque a estatal se ressentia da soma de decisões heterodoxas (segurar a inflação por meio de preços artificiais de combustíveis) com o banditismo demonstrado pela Lava Jato.

Mas o mercado de títulos não acompanhou o mergulho nos preços da estatal. As ações preferenciais do Bradesco, por exemplo, depois de um pico de R$ 40 em outubro de 2014, estacionaram na faixa entre R$ 27 e R$ 32. Não ocorreu um mergulho semelhante ao de 2008.

Pode-se argumentar, o que é verdade, que há nove anos o Brasil sofria os efeitos de uma crise que ele próprio não criou. Mas é também verdade é que o mercado parece agora estar relativamente blindado contra oscilações provocadas por aqui mesmo, a partir do  esfarelamento do Executivo, com o Legislativo sob suspeição e o Judiciário e mais o Ministério Público que atiram para todos os lados.

O QUADRO ECONÔMICO AINDA É NEGATIVO

Sem o descrédito que atingiu em cheio o governo Temer, o fato é que ourros indicadores -sobretudo o PIB industrial e o de serviços, que refletem a economia real -poderiam estar demonstrando um desempenho bem mais satisfatório. As empresas estariam investindo mais, e a taxa de desemprego já teria entrado em declínio. 

Os indicadores produzidos pelo setor produtivo ainda estão muito ruins. Mas já colocaram o nariz acima do nível em que é possível respirar, ao contrário do que acontecia no primeiro semestre de 2016.

Mesmo assim, os índices do plano macro estão impressionantemente estáveis. E, para isso, há algumas constatações consensuais.

A principal é de que, mesmo se for forçado a deixar a Presidência, Michel Temer deixará como herança para o mercado uma equipe econômica na qual os empresários mantém uma relação de confiança.

Ministérios da Fazenda e Planejamento e mais o Banco Central são hoje os guardiães de expectativas positivas, que lembram o Brasil do final de 1992, quando os ministros "éticos" se responsabilizaram pela condução do Estado durante o declínio final do presidente Fernando Collor.

São os acertos da equipe econômica e a autonomia com que ela opera que justificam o declínio da inflação, que é o mais eloquente indicador de algum "descolamento" entre a economia e a política.

Entre o estágio final de Collor e a situação atual de Temer, o Brasil está hoje bem melhor. Não há risco de crise cambial, que alimentou a combustão do regime militar em 1882 ou das pequenas recessões posteriores.

Com quase US$ 380 bilhões de reservas, o país é dono de uma moeda contra a qual nenhum grupo de investidores mais arriscado ousaria desencadear uma operação especulativa, como, por exemplo, a que vitimou a moeda russa em 1999 e, em seguida, o peso argentino.

Existe ainda a crença de que as reformas não afundaram na mesma lama de corrupção que a Lava Jato vem mapeando. Se a reforma da Previdência está empacada no Congresso, a reforma Trabalhista - sobre a qual há um forte investimento do empresariado - poderá sair finalmente do papel. Some-se a isso o teto dos gastos púbicos, já em vigor e com peso constitucional.

O REAL NÃO ENTROU EM COLAPSO, E A INFLAÇÃO CAI

Enquanto isso, o real se mantém forte também pelo desempenho da balança de pagamentos. Em 2014, ano da reeleição de Dilma, o país sofreu um déficit de US$ 104 bilhões.

Mas o dinamismo das exportações, aliados às importações menores por causa da recessão, fizeram com que esse déficit chegasse nos 12 meses terminados em maio último a "apenas" US$ 18 bilhões.

Somem-se a isso os outros US$ 80 bilhões que entraram no mesmo período como investimentos na atividade produtiva. 

São indicadores consistentes. O país ainda vai mal, mas não está na lona.

Mesmo assim, a tese do "descolamento" entre a política e a economia é contestada com veemência pelos economistas sérios da esquerda. Amir Khair é um deles.

Dois terços da economia, diz ele, referem-se ao consumo das famílias, que ainda está achatado pela crise, enquanto o pequeno e o médio empresário não estão ainda encorajados a investir pesadamente em suas empresas, ou, no caso do varejo, a reforçar os estoques para uma retomada possivelmente próxima do consumo.

Mas há um outro fator histórico que corre em paralelo, e que ilumina um percurso no qual algum "descolamento" passa a fazer sentido. Trata-se da impressão difusa de que a sociedade e o governo, por funcionarem por meio de dinâmicas próprias, não estão necessariamente tão entrelaçados assim.

Claro que os juros estão ainda elevados. Claro que 45% do crédito ainda vem dos bancos oficiais. Mas existe uma margem dentro da qual a economia dá um pouco menos de atenção ao governo.

Foi o que aconteceu com o setor agrícola em 1982. Em lugar de prestar atenção aos indicadores sempre ruins de Brasília, foi ele, com a agricultura e a pecuária, que alavancou a saída da recessão daquele período.

Na década de 1960, alguns políticos repetiam uma afirmação patética e de leveza anedótica. O besouro, diziam eles, é pesado para voar, não tem aerodinâmica para voar e tem asas muito curtas para voar. Mas o besouro não sabe disso, e então ele voa.

É provável que o mesmo esteja acontecendo hoje com setores da economia.

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