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Saiba por que o prisioneiro Joesley Batista é um inimigo da Lava Jato


Controlador do grupo J&F, (ao centro da foto, quando se entregou domingo à Polícia Federal), tentou desmoralizar o procurador Rodrigo Janot e ameaça de descrédito a instituição da delação premiada


  Por João Batista Natali 11 de Setembro de 2017 às 14:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Joesley Batista junta muitas razões para se manter na condição de celebridade. Mas acaba de incorporar a mais perigosa: a de coveiro da operação Lava Jato.

Suas confissões cobriram duas etapas: a primeira em maio, em operação que quase comprometeu o mandato de Michel Temer, e a segunda na fita de uma conversa cafajeste com seu diretor, Ricardo Saud.

A primeira confissão atingiu duramente a reputação do procurador-geral Rodrigo Janot. Ele estava visivelmente com tanta pressa em redigir uma denúncia contra o presidente da República que fechou com Joesley o trato de impunidade, em troca da gravação da conversa comprometedora nos porões do palácio do Jaburu.

O que no fundo estava em jogo era a instituição da delação premiada, e a impressão que ficou era de que o delator pode absolutamente tudo.

Mas não pode. Tanto que os onze ministros do Supremo Tribunal Federal se reuniram para saber se alguma autoridade poderia retirar de Joesley a dádiva (a liberdade impune) que Rodrigo Janot lhe concedeu.

A decisão do STF foi simples. Com a exceção de Gilmar Mendes, todos acreditaram que a Procuradoria era a dona do processo e ela poderia decidir os pesos e as medidas da delação e da contrapartida oferecida ao réu.

Seguiram-se etapas mais políticas que jurídicas. Com base na informação de que Joesley oferecera a Temer uma mesada semanal de R$ 500 mil –aquela que foi entregue em São Paulo ao emissário Rodrigo Rocha Loures – o STF pediu que a Câmara dos Deputados autorizasse a abertura de processo contra o presidente.

Mas, em 2 de agosto, por uma maioria apertada, os deputados decidiram que não o afastariam e que ele poderia responder ao processo por corrupção passiva só quando deixasse o cargo.

A TROMBADA NA SEGUNDA DENÚNCIA DE JANOT

Rodrigo Janot anunciou, então, que faria uma nova denúncia, provavelmente baseado na delação do doleiro Lúcio Funaro, que operava para Eduardo Cunha (preso na Papuda) e para os caciques do PMDB no Congresso – entre eles o próprio Temer.

Eis que enquanto redigia o novo texto, Janot foi surpreendido pela gravação da conversa entre Joesley e Saud. Em que ambos faziam pouco da procuradoria e do Judiciário e afirmavam que em hipótese alguma seriam presos.

Janot virou o ingênuo da história. Deu vantagens para um contraventor que não mereceria tantos favores.

As coisas se sucederam rapidamente na semana do Sete de Setembro. O ministro Edson Fachin suspendeu as vantagens que Joesley usufruía e decretou a prisão dele.

Nesta segunda-feira (11/09), o empresário da JBS e Ricardo Saud, seu diretor falastrão, já estavam presos em São Paulo e eram transferidos para Brasília.

Mas como é que a Lava Jato se enquadra nesse roteiro? A resposta é simples. Já que Joesley não cumpriu o compromisso de contar tudo o que sabia, já na primeira delação, a própria instituição da delação premiada entrou na berlinda.

Os advogados do presidente Michel Temer foram os primeiros a esfregar as mãos. E também o ministro da Justiça, Torquato Jardim, que sentiu cheiro de sangue e declarou que a prisão dos dois delatores terá consequências graves para a equipe da Lava Jato.

O plano do governo é bastante simples. Desacreditar ao máximo a Lava Jato, para, com isso, obter o arquivamento da primeira delação de Joesley e, a partir daí o arquivamento da primeira denúncia contra Temer, inviabilizando uma segunda denúncia.

O CONGRESSO E A LAVA JATO: RELAÇÃO DE ÓDIO

Acontece que o Planalto e sua base no Congresso – eles já planejam fazer barulho contra as delações, na CPI criada para investigar os propinodutos de financiamento da JBS – têm um pesado poder de fogo nesse roteiro.

Um roteiro que tem como peça-chave a Polícia Federal, cujo superintendente deve ser em breve substituído pelo ministro Torquato Jardim.

E também no roteiro o vice-presidente do sindicato os policiais federais, Flávio Werneck, que acusa nesta segunda-feira o governo de planejar um “duro golpe na Lava Jato”.  É o título de artigo que ele publica na Folha de S. Paulo.

A manobra de Temer pode esbarrar no STF, já que os ministros tendem a se manifestar sobre a validade das delações de Joesley, mesmo com a descoberta de que ele não havia delatado toda a verdade.

O jornal O Globo entrevistou seis ministros do Supremo que disseram que a primeira delação permanece válida. Ou seja, a Procuradoria tem motivos para tentar novamente processar Michel Temer.

Mas Janot deixa o cargo de procurador-geral no próximo dia 18. Será sucedido por Raquel Dodge, que não se sabe se manterá com relação ao Planalto uma atitude de ferrenha marcação.

Se não bastasse a complexidade de uma história montada por fragmentos de outras histórias, há ainda um fator paralelo que atende pelo nome de Geddel Vieira Lima.

O ex-ministro de Temer, agora recolhido à Papuda. Precisa encontrar uma explicação convincente para os R$ 51 milhões que mantinha em papel moeda num apartamento de Salvador.

Mas se não houver explicações que não comprometam a honestidade dele, resta como alternativa pôr a culpa na Polícia Federal, que cometeu a indelicadeza de descobrir tanto dinheiro.

Razão a mais para que o governo procure enquadrar a corporação policial.

Por fim, o lado incômodo da Lava Jato faz com que o PMDB de Temer e o Partido dos Trabalhadores andem circunstancialmente de braços dados.

O PT também tem horror das delações. Basta lembrar o depoimento – por enquanto voluntário, e não como delator – do ex-ministro Antonio Palocci, e a maneira pela qual Palocci arrebentou com a reputação do ex-presidente Lula.

Que, aliás, estará nesta quarta-feira (13/09) em Curitiba, para ser interrogado por Sérgio Moro, a respeito da compra do terreno no bairro paulistano de Vila Mariana, para a sede que o Instituto Lula desistiu de construir naquele local.

Lula e os petistas estariam hoje de acordo com o senador peemedebista Romero Jucá, que, com relação à Lava Jato, afirmou em conversa grampeada que era preciso “fazer alguma coisa”.

Infelizmente, alguma coisa já está sendo feita.

 

FOTO: Felipe Rau/Estadão Conteúdo