São Paulo, 22 de Maio de 2017

/ Brasil

O pesado inferno astral de Michel Temer
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Presidente é atingido pelas delações da Odebrecht e por duas pesquisas do Datafolha, que também refletem o pessimismo em relação à economia

Michel Temer desceu alguns degraus nos últimos dias, e põe em perigo até o cronograma constitucional que o manteria até o final de 2018 na Presidência da República. 

Não é exagero ou pessimismo consumado. A própria discussão em público dessa questão já é um sintoma de que as coisas não vão nada bem. O próprio mercado demonstrou pessimismo nesta segunda-feira (12/12). O índice Bovespa fechou em queda de 2,19%.

Temer foi abatido por uma confluência de fatores negativos, como as crises palacianas (Geddel, acusações contra Eliseu Padilha), as delações da Odebrecht, duas pesquisas do Datafolha – queda de sua já tênue popularidade e inesperada ascensão eleitoral de Lula – e pessimismo do mercado quanto à lenta recuperação da economia.

É um quadro que leva ao roteiro sombrio de agravamento agudo da crise política, o que poderia levar Temer até à renúncia.

Com ela, o Congresso elegeria um novo presidente para completar o mandato iniciado por Dilma Rousseff em 1º de janeiro de 2015.

Não é um enredo de ficção. Dois sintomas disso: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu entrevista, publicada nesta segunda-feira (12/12) pelo jornal O Estado de S. Paulo, em que diz não se colocar como alternativa para voltar ao Planalto como um bombeiro das instituições.

O nome de FHC corre à boca pequena já há algumas semanas. A alternativa seria vista como “um golpe dentro do golpe” pelo pequeno núcleo de partidos do lulopetismo.

Essa oposição tem pouquíssimo peso para hoje definir os rumos da crise. Mas foi ela que tomou a iniciativa de fazer circular, para essa eventualidade, um ouro nome, o de Nelson Jobim.

Ele é citado neta segunda-feira pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo.

Ex-professor da Universidade Federal de Santa Maria e ex-deputado pelo PMDB do Rio Grande do Sul, Jobim foi ministro de FHC, que o indicou para o Supremo Tribunal Federal (STF), do qual foi presidente. Foi também ministro de Lula e de Dilma.

OS ESTRAGOS DO DATAFOLHA

Mas olhando agora para o que é mais recente. Saiu no domingo o Datafolha mais sombrio para o presidente. Entre julho e agora, a avaliação de ruim ou péssimo subiu de 31% para 51%.

A parcela da população que acredita na piora da economia saltou de 30% para 41%, enquanto os que achavam que ela melhoraria cairam de 38% parra 18%.

É possível dar para esses números um desconto. O Brasil é um país em que os cidadãos querem resultados imediatos. E o quadro fiscal deixado por Dilma exigiria um esforço bem mais lento da equipe econômica.

Mas a percepção de que o governo é menos dinâmico que o necessário também é compartilhada pelos empresários.

Um segundo Datafolha saiu nesta segunda-feira. A informação menos importante é de que Marina Silva sairia ganhando em todas as simulações de segundo turno em 2018. A mais importante, no entanto, é que, sem Marina, Lula derrotaria indistintamente Aécio Neves ou Geraldo Alckmin.

Mesmo com a maior das taxas de rejeição (44%, contra 30% para Aécio ou 17% para Alckmin), o que conturba o otimismo petista, Lula ressurge pela primeira vez como alternativa para um cenário de crise e descrédito.

O Datafolha não colocou na pesquisa Ciro Gomes (PDT) ou Ronaldo Caiado (DEM), o que empalidece seu retrato das intenções eleitorais. Mas o fato é que o PT está bem melhor que nos resultados das últimas eleições municipais ano.

E se isso aconteceu, é porque há um efeito de contraste com a imagem do governo Temer e, também, algum sucesso na campanha – preponderante nas redes sociais – de que a Lava Jato está maliciosamente direcionada para levar Lula à cadeia.

DELAÇÃO DA ODEBRECHT: PRIMEIRO ATO

Mas a mesma Lava Jato ganhou uma inesperada dinâmica com o vazamento da delação de Cláudio Melo Filho, um dos 77 ex-executivos da Odebrecht.

Temer está entre os principais nomes por ele delatados. Na lista dos dez mais importantes, apenas um, Jaques Wagner, é do PT. E entre os 38 outros nomes há apenas sete petistas ou aliados, como Marco Maia e Lídice da Mata.

A lista que circulou no fim de semana merece três ressalvas.

1 – Ela se refere ao caixa dois em orçamentos eleitorais. Há poucos casos de doações para remunerar o lobby em favor da Odebrecht, como Carlinhos Almeida (PT-SP), que defendeu uma MP que interessava projetos da empreiteira na área da defesa, ou Moreira Franco (PMDB-RJ), que protegeu a empresa na concessão do aeroporto do Galeão.

2 – O delator Cláudio Melo Filho atuava mais no Congresso. Suas informações são menos bombásticas que as de Emílio Odebrecht e de seu filho, Marcelo Odebrecht, ou Alexandrino Alencar, Pedro Novis e Benedicto Júnior, segundo o site O Antagonista. É com esses outros delatores que rolarão cabeças graúdas do PT, como Lula e Dilma.

3 – O vazamento se refere a uma delação ainda não homologada pelo STF. Isso significa que a Procuradoria Geral da República pode anular seu conteúdo. A quem interessaria que isso aconteça? Aos próprios envolvidos, segundo percepção geral.

A Odebrecht e seus advogados não ganhariam nada e perderiam tudo com uma eventual anulação, semelhante à que vitimou Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

Foi dele a informação de que combinou com João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, que o apartamento para Lula no Guarujá entraria na quota de suborno do partido.

Ou seja, algo muitíssimo mais grave do que agora é atribuído a Temer. O atual presidente, ainda segundo o delator, pediu à Odebrecht R$ 10 milhões para a campanha do PMDB em 2014.

Temer era então o presidente nacional de seu partido, que disputava a vice-presidência de Dilma e ainda centenas de eleições para governador, senador e deputado.

Mas o que importa é que esse conjunto de informações caiu num péssimo momento para o presidente. Que, já fraco, tornou-se mais enfraquecido.

FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO



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