Brasil

O lento e doloroso desembarque dos tucanos


Ministros do PSDB (fotos) podem ser os últimos a abandonar um governo que, de tão comprometido e impopular, compromete os planos eleitorais do partido para 2018


  Por João Batista Natali 05 de Junho de 2017 às 13:01

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Caso sobreviva ao julgamento que começa nesta terça-feira (06/06), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Michel Temer não sabe ao certo o que terá no Congresso como base de sustentação para seus projetos de reforma.

As dúvidas não estão no PMDB, com 65 dos 513 deputados da Câmara, nem no DEM, com 27. Elas hoje se concentram no PSDB.

Dos 46 deputados tucanos, 26 querem se bandear para a oposição e 12 subiram no muro. Dos 11 senadores, cinco querem se dissociar de um presidente desgastado.

O desgaste vem da delação da JBS, da prisão e possível delação do ex-deputado Rocha Loures (PMDB-PR) – o “homem da mala” com R$ 500 mil, filmado ao recolher propina que Joesley Batista diz se endereçar a Michel Temer –e do procurador-geral Rodrigo Janot, que os advogados do presidente acusam de manipular o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.

É um jogo complicado em que, involuntariamente, o PSDB passou a ter a chave decisiva. Se abandonar o Planalto, as reformas vão para as calandras, e Temer pode renunciar.

Se permanecerem no governo, os tucanos serão contaminados quando tentarem no mínimo manter o atual peso nas eleições de 2018, que elegerá, além do presidente, governadores, deputados estaduais e federais e ainda dois terços do Senado.

Os passos do PSDB são publicamente ambíguos. Os três ministros do partido – Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), Aloysio Nunes Ferreira (Itamaraty) e Bruno Araújo (Cidades) [na foto que abre esta reportagem, da esq. para dir.] – reuniram-se domingo com Temer e disseram que o partido fica no governo.

Na sexta-feira anterior, em reunião que começou às 22h no palácio dos Bandeirantes, o governador Geraldo Alckmin (SP), disse a Temer que não interessava ao PSDB se tornar agente de desestabilização.

UM ERRO NO CAMPO MINADO

Mas nesta segunda-feira o PSDB reúne seu diretório paulista e exprime a mesma ambiguidade relatada pelo prefeito paulistano João Doria: “Vamos esperar pela decisão do TSE para tomar posição.”

Na semana anterior, para sobreviver à maré da dissidência tucana que ameaçava submergir o Planalto, a dupla palaciana do presidente (Moreira Franco e Eliseu Padilha) chegou a sugerir que os tucanos se mantivessem no Congresso como “independentes”.

O problema é que a dinâmica contra a sobrevivência de Temer se acelerou de tal forma que a neutralidade seria, para muitos, eleitoralmente suicida.

Vejamos. Logo após as gravações de Joesley, em 17 de maio, surgiu a percepção de que Temer estava por um fio e poderia renunciar nas horas seguintes.

Foi quando o PSDB cometeu seu maior erro. Lançou a candidatura indireta do senador Tasso Jereissati (CE) e chegou até a negociar, com o PC do B, o cargo de vice para o mandato-tampão, até o final de dezembro do ano que vem.

O gesto estimulou a debandada dos deputados e amoleceu o empenho dos tucanos que estivessem dispostos a defender o Planalto.

Não tanto pela pessoa física de Temer, mas pelo projeto de reformas que ele vinha encaminhando com competência na Câmara e no Senado.

O caminho de retorno ao situacionismo demonstra agora ser muito difícil.

Os deputados que defendem a ruptura já sinalizaram o corpo mole na Câmara, em votações sobre a convocação de diretas-já, que seriam irrealistas e que apenas beneficiariam o Partido dos Trabalhadores.

AS PROVAS DA FRAGILIDADE POLÍTICA

O fato é que o Planalto está suficientemente encrencado para atrair novamente o apoio que possuía nos primeiros dias de maio.

Temer sabe que seu futuro não está sendo decidido apenas dentro do TSE, onde chegaram a lhe atribuir cinco votos a um, situação que pode ter-se invertido com a prisão do “homem da mala” Rocha Loures.

Curioso o fato de, na Justiça Eleitoral, poucos se preocuparem hoje com Dilma Rousseff, que é co-ré na ação movida em dezembro de 2014 pelo PSDB para impugnar a chapa presidencial vencedora.

O pescoço que se aproxima da guilhotina é o do presidente da República.

Seus advogados fazem barulho em torno de questões menores, lembrando as tentativas, durante o impeachment de Dilma, do então ministro da Justiça, o petista José Eduardo Cardozo.

E o Planalto também joga pesado.  Nesta segunda-feira, em O Globo, o colunista Lauro Jardim diz que partiu do Planalto o pedido de interpelação de deputados ao ministro Fachin, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Isso porque ele, em 2015, quando candidato a uma cadeira do STF, teria sido assessorado por Ricardo Saud, lobista da JBS que envolveu ministros do governo em sua delação premiada.

É um jogo do pequeno varejo que não neutraliza outras informações comprometedoras. Como, por exemplo, o fato de um coronel reformado da PM paulista, João Baptista Lima – homem de confiança do hoje presidente – ter supervisionado pessoalmente a reforma da casa de Maristela Temer, uma das filhas dele, com fundos de origem duvidosa.

Diante de tudo isso, o que é que poderá acontecer?

As ruas poderiam voltar a ser um grande ator da história política imediata. Mas elas estão visivelmente apáticas, para a sorte do Planalto.

Só mesmo um delírio psicótico permitiria acreditar que em Copacabana (28/5) e no Largo da Batata (04/06) reuniram-se, em cada ato convocado pelas esquerdas, algo próximo a 100 mil pessoas. Foram no máximo um quinto disso, e mesmo assim por conta de espetáculos de música pop.

A resposta sobre o que ocorrerá desencoraja, então, os apreciadores de certezas. Pode acontecer tudo. Até mesmo o fato de Michel Temer continuar na Presidência da República.

 

FOTOS: Valter Campanato/Fábio Rodrigues Pozzebom/Antônio Cruz/Agência Brasil