São Paulo, 26 de Fevereiro de 2017

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Morre d.Paulo Evaristo Arns, cardeal da resistência
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Ele passará para a história do catolicismo brasileiro como um radical defensor dos direitos humanos nos anos de chumbo. Foi também teólogo e historiador, que defendeu na Sorbonne tese de doutorado sobre São Jerônimo

Morreu nesta quarta-feira (14/12), aos 95 anos, d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo e uma das figuras mais reconhecidas do catolicismo brasileiro no campo dos direitos humanos.

Ele estava internado havia 17 dias no hospital Santa Catarina, em São Paulo, para o tratamento de problemas pulmonares. A morte se deu às 11h45.

Frade franciscano, ordenado em 1945, d. Paulo se tornou bispo em 1966 e arcebispo paulistano em 1970, aposentando-se em 1998.

Sua atuação episcopal está diretamente ligada às múltiplas e discretas intervenções em favor de prisioneiros políticos e pessoas perseguidas ou vitimadas pelo regime militar.

Por mais que suas atividades por muitos anos fossem objeto de censura na grande mídia e estivessem apenas registradas por O São Paulo, orgão da Cúria Metropolitana, d. Paulo se tornou uma figura política de primeiro plano depois da morte pela tortura, em outubro de 1975, do jornalista Vladimir Herzog. 

A versão oficial do DOI-Codi, onde ele estava preso para ser interrogado, apontava para um inverossímel suicídio. Uma ampla mobilização de dirigentes religiosos levou a sociedade a descobrir o verdadeiro homicídio.

Herzog, de origem judaica, não foi sepultado na ala reservada a suicidas no Cemitério Israelita do Butantan. E dias depois foi homenageado em culto ecumênico na Catedral da Sé, celebrado pelo próprio d. Paulo, pelo rabino Henry Sobel e pelo bispo protestante James Wright, cujo irmão também fora morto sob tortura.

Ao lado de Sobel e Wright, o cardeal paulistano coordenou discretamente o projeto "Brasil, Nunca Mais", que, entre 1979 e 1985, recolheu nos arquivos da Justiça Militar depoimentos de presos políticos que afirmavam terem sido torturados.

Transformado em livro, o projeto executado por cerca de 30 voluntários, entre eles o jornalista Ricardo Kotscho, foi editado de maneira excepcional.

Um grupo extenso de editoras se responsabilizou pela obra, de modo a dificultar que apenas uma delas fosse processada pela infame Lei de Segurrança Nacional e enfrentasse dificuldades no mercado editorial.

D. Paulo voltou a ser um cardeal centrado em questões espirituais depois da redemoratização do país, em 1985, e -ligado muito indiretamente à chamada teoria da libertação, que passou a ser abominada pelo Vaticano com a ascensão do papa João Paulo II, em 1979 -teve sua arquidiocese e seu poder geografica e politicamente divididos, com a criação de novas dioceses no município de São Paulo.

O arcebispo emérito de São Paulo foi também teólogo e historiador. Sua tese de doutorado, defendida na Sorbonne como padre bolsista em 1950, aborda o fenômeno histórico de São Jernônimo, teólogo e filólogo do século 4o, tradutor da bíblia para o latim ("vulgata") e editor da própria bíblia, descartando livros apócrifos, por meio o estudo comparativo de idiomas dos manuscritos que lhe eram entregues.

Sua tese, por duas vezes publicada em livro, é uma demonstração de que já há 1.800 anos a comunicação dispensava a tecnologia.

Jerônimo, que vivia na Grécia, tinha à disposição um grupo de copistas que entregava seus estudos a dezenas de barcos que vinham buscá-los, para que num prazo inferior a três meses eles estivessem em mãos de dignatários da Igreja na Itália, Alemanha ou Península Ibérica.

CATARINENSE E IRMÃO DE ZILDA ARNS

Paulo Evaristo Arns foi o quinto de uma família d 13 filhos de um casal de imigrantes alemães. Ele era irmão de Zilda Arns, que chefiou a Pastoral da Criança e morreu durante o terremoto do Haiti em 2010.

Entre 1941 e 1943 ele estudou filosofia em Curitiba e, nos três anos seguintes, teologia em Petrópolis. Lecinou no seminário paulista da cidade de Agudos e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Bauru, antes de ser convidado para a Faculdade Católica de Petrópolis.

Como bispo, ele foi nomeado para São Paulo, em substituição a d. Agnelo Rossi, que passou a ter um relacionamento difícil com a comunidade católica, em razão de sua suposta subserviência ao regime militar.

A reputação de "bispo progressista" o colocaria ao lado de d. Helder Câmara, do episcopado de Olinda, e, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em campo oposto ao do conservador Eugênio Sales, então cardeal arcebispo do Rio de Janeiro.

Um dos primeiros atos apostólicos de d. Paulo foi a venda do palácio episcopal, no bairro da Bela Vista, no qual era servido por 25 padres e freiras, mudando-se para um convento localizado no bairro da Luz, na parte de trás do quarteirão que divide com o batalhão da PM Tobias de Aguiar, na avenida Tiradentes.

Por ter ultrapassado o limite de idade, não mais participou dos conclaves que escolheram Bento 16 e o papa Francisco. Tornou-se professor titular da cátedra da Unesco consagrada aos Direitos Humanos, na Universidade de São Paulo, e mantinha uma vida social discreta, em companhia de sua imensa biblioteca e dos discos e CDs de música sacra - sobretudo as cantatas de Johan Sebastian Bach.

FOTO: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo