São Paulo, 27 de Julho de 2017

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Frente a Sérgio Moro, Lula fala pouco para não se complicar
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Petista atribuiu a sua falecida mulher, Marisa Letícia, interesse pelo triplex do Guarujá, que o ex-presidente da OAS afirmou ter reservado ao casal como parte da propina

No primeiro depoimento que prestou nesta quarta-feira (10/05) ao juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se limitou a dar respostas curtas e com a aparência de objetividade, sobre o apartamento triplex do Guarujá que teria recebido como propina da OAS. 

Ele também insistiu no fato de que o interesse pelo apartamento vinha de sua mulher, Marisa Letícia, falecida em fevereiro último.

Raramente lacônico em sua vida pública, em que, ao contrário, sente prazer em fazer longos discursos com palavras  cativantes ou emocionais, Lula esteve excessivvamente cauteloso durante sua esperada oitiva em Curitiba.

Foi um depoimento longo, de 4h51m, iniciado às 14h16 e que teve apenas duas breves interrupções.

O ex-presidente compareceu como réu, em processo aberto em setembro de 2016, no qual é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo o Ministériio Público, ele recebeu R$ R$ 2,5 milhões da OAS, sob a forma do apartamento.

Leo Pinheiro, ex-presidente daquela empreiteira, declarou em juízo ter acertado com o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que o valor do imóvel a ser presenteado a Lula seria descontado, na contabilidade da OAS, do saldo à disposição do partido. A origem desses fundos estava em contratos superfaturados com a Petrobras.

O imóvel tem uma longa história. Segundo Lula, Marisa Letícia desejava comprá-lo como forma de investimento. Foi por isso que foi adquirida uma cota do imóvel, em nome dela, antes mesmo do início da construção, por uma cooperativa ligada ao Sindicato dos Bancários de São Paulo.

A cooperativa faliu, e o imóvel foi repassado à OAS. Lula e sua mulher teriam pago as prestações da cota até 2013. 

Nesta quarta, em Curitiba, Sérgio Moro perguntou ao ex-presidente se ele reconhecia um documento datado de 2004 e que demonstrava vínculo dele e de Marisa Letícia com o apartamento.

O documento foi apreendido no apartamento do casal, logo depois da condução coercitiva a que Lula foi submetido em 2016.

Lula respondeu desconhecer o papel e apontou para o fato de ele não ter sido assinado por vendedores e compradores.

Moro fez perguntas precisas e igualmente lacônicas. Perguntou a Lula se ele havia visitado o apartamento. Ao que o ex-presidente respondeu positivamente, e deu a data de fevereiro de 2014. 

Lula disse que o imóvel tinha "quinhentos defeitos" e afirmou que Leo Pinheiro, presente à mesma visita, procurava empurrá-lo como se fosse um vendedor. 

Ainda segundo Lula, sua mulher não gostava do mar, enquanto ele, como "personagem pública", disse acreditar que, caso comprasse o apartamento, só poderia usá-lo "às segundas-feiras ou na Quarta-Feira de Cinzas", quando a praia estivesse vazia.

Entre os "defeitos" que apontou, o apartamento seria pequeno para uma família de quatro filhos, mais os netos e agora um bisneto. Nessa quantificação, Lula incluiu a filha Lurian, que teve antes de se casar com Marisa Letícia, e que nunca morou com o casal.

Moro perguntou se ainda em 2014 Marisa Letícia havia novamente visitado o imóvel. Depois de hesitar, o ex-presidente afirmou que ela o havia feito em agosto, em companhia de um de seus filhos, mas que ela teria sido guiada pela lógica do investimento imobiliário.

Confirmou que visitou o imóvel, porque a OAS pretendia vendê-lo para sua família. Mas disse que não orientou nenhuma reforma no imóvel. Lula disse que a sua mulher, Marisa Letícia, o acompanhou.

O ex-presidente também negou ter pedido ou sugerido a instalação de um elevador privativo para o triplex ou uma reforma luxuosa na cozinha. 

O CIRCO DE CURITIBA

O depoimento de Lula foi concebido pelo PT para se transformar num espetáculo capaz de motivar militantes e permitir imagens externas, gravadas para serem exibidas como propaganda.

Foi assim que, ao chegar à Justiça Federal para depor, Lula deixou o carro e percorreu alguns metros, empunhando uma pequena bandeira brasileira, cercado por integrantes do MTST (sem-terra) e sobretudo da CUT, central sindical com maior visibilidade, com suas bandeiras e balões vermelhos.

De terno, camisa azul clara e gravata verde e amarela, Lula voltou minutos depois ao automóvel que o esperava, aí sim, para entrar pelo estacionamento subterrâneo do prédio e se deslocar até a sala de audiências.

A direção do PT anunciou na semana que precedeu o evento que estariam em Curitiba “100 mil militantes”. Mas a Polícia Militar do Paraná contabilizou apenas 10 mil.

Até a noite de terça-feira a Polícia Rodoviária havia registrado a chegada de 138 ônibus vindos do interior do Paraná, São Paulo ou de Estados mais ao norte.

Para solenizar o cenário curitibano em termos partidários, o PT deslocou para o Paraná 30 dos seus 58 deputados federais e nove dos 11 senadores.

Todos eles, ao lado do PC do B e da incansável deputada Jandira Segall (RJ). O fato é que a oposição no Congresso esteve numericamente desfalcada nesta quarta-feira.

Em seu conjunto, essas pessoas procuraram dar uma demonstração de força, mas para uso próprio. A Justiça Federal, em sua primeira instância, não se deixaria influenciar pela claque que a Polícia Militar paranaense não deixou se aproximar, além de um cordão instalado a 150 metros do fórum.

Cenas de aglomerações de militantes favoráveis a Lula foram obviamente compartilhadas nas redes sociais, onde um dirigente do Psol de São Paulo anunciava, em torno do meio-dia, que Curitiba presenciava “a essência da luta de classes” (sic).

Mas toda essa pajelança –entre elas a grosseira faixa da CUT, designando Moro como “juiz canalha” -não ajudaria Lula a convencer o Judiciário de que o apartamento do Guarujá não foi doado pela OAS, como parte de um orçamento bem maior, furtado da Petrobras, que o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, recebeu da empreiteira em nome de seu partido.

FOTO: Reprodução/vídeo

 



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