São Paulo, 21 de Fevereiro de 2017

/ Brasil

Delação de Marcelo Odebrecht desmorona sonhos finais do PT
Imprimir

Depoimento do empreiteiro atinge Dilma e Lula. Ex-presidente articula fim do impeachment no Senado em troca da renúncia da presidente afastada e novas eleições

A delação premiada de Marcelo Odebrecht tem para a operação Lava Jato um peso provavelmente idêntico ao da soma de todas as delações registradas.

Pois ela já está em fase de conclusão, segundo o jornal Valor Econômico desta sexta (27/05), com anexos temáticos que deixam preocupadíssimos e de cabelo em pé não apenas o PMDB e o PT, mas sobretudo o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, pelo potencial de estragos políticos e penais.

Ou, como disse o ex-senador José Sarney, em gravação entregue à Lava Jato pelo ex-presidente da Braspetro, Sérgio Machado, Marcelo Odebrecht é “uma metralhadora ponto 100”.

O empresário, conhecido em Curitiba por suas iniciais MO, está preso desde o ano passado e já foi condenado a 19 anos de prisão, com outros processos em curso e novas potenciais condenações.

Informações já em poder do juiz Sergio Moro ligam a Odebrecht a atividades suspeitas de Lula, como a intervenção em contratos no exterior com financiamento do BNDES, em troca da remuneração por palestras fictícias e doações ao instituto que leva o nome do ex-presidente.

Foi também com base no propinoduto montado pela Odebrecht na Petrobras que o Ministério Público paulista pediu a prisão de Lula, sob a alegação de que se tratava de suborno para a compra do sítio de Atibaia, com a intermediação de “laranjas”. O processo seguiu para Curitiba e está hoje com o STF.

Vazamentos esparsos também dão conta de que o grosso das informações contra Lula, em termos financeiros, estariam em contratos fechados por ele com a Odebrecht em Angola, país de alto potencial corruptor, por ser uma ditadura originariamente de esquerda e que é também grande produtor de petróleo.

Num outro plano, estão as informações obtidas nas gravações de Sérgio Machado de que a presidente Dilma Rousseff pediu pessoalmente, em 2014, que Marcelo Odebrecht remunerasse, com contas no exterior, o trabalho de seu marqueteiro João Santana, preso em Curitiba desde o início deste ano e hoje também fazendo delação.

Vejam que essa enxurrada de informações políticas e penais superam os factóides sobre os quais a mídia se movimentou durante esta semana, como o fato de Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, pretender limitar as delações para com isso prejudicar a Lava Jato.

É uma intenção sem a mínima dimensão prática, tanto quanto os sete projetos semelhantes que tramitam no Congresso, alguns deles por iniciativa do Partido dos Trabalhadores.

O fato é que as complicações que se acumulam no horizonte de Lula explicam um outro roteiro desencadeado pelo ex-presidente e revelado quinta-feira (26/05) por O Estado de S. Paulo.

O roteiro consistiria numa última tentativa de reverter o resultado desfavorável a Dilma, na votação definitiva do impeachment pelo Senado, nos primeiros dias de agosto.

A ideia seria convencer senadores hesitantes –o PT precisaria impedir que o afastamento tivesse 54 votos, um a menos que em 11 de maio, quando bastavam 41 para tirá-la do palácio do Planalto.

A sugestão de Lula estaria em derrubar o impeachment com o compromisso de que Dilma, em seguida, renunciaria para forçar a convocação de novas eleições presidenciais.

Por trás da proposta está não somente um verdadeiro golpe contra o presidente em exercício, Michel Temer, mas também a admissão aberta de que a presidente afastada não teria mais as mínimas condições de governar.

Por esse roteiro, será que Lula disputaria a Presidência e consideraria ter chances de vencer?

É uma hipótese remota, mas ela é, mesmo assim, uma alternativa para que, com a imunidade de um chefe de Executivo, ele voltasse a ter foro privilegiado e afastasse o fantasma de uma boa temporada nas prisões de Curitiba.

Outra dificuldade para esse roteiro estaria em encontrar senadores ainda em dúvida quanto ao fato de Dilma ter cometido crime de responsabilidade.

Um dos nomes em foco seria Cristóvão Buarque (PPS-DF), que, no entanto, já declarou que concordaria com essa hipótese caso Dilma abandonasse de vez a tese de que foi vítima de um “golpe” e que confessasse sua responsabilidade pessoal na imensa recessão pela qual o país atravessa.

Não é preciso dizer que são duas condições incompatíveis com o DNA da presidente afastada e de seu partido.

Tudo isso vale, no entanto, para que a militância petista mantenha um fio de esperança. Ela tem como vantagem atual o fato de ser praticamente a dona das ruas –Temer não mobiliza simpatizantes em manifestações públicas –e de dispensar qualquer lógica política em suas iniciativas, como a de manter a ocupação do antigo Ministério da Cultura, no Rio, mesmo depois da satisfação que receberam do presidente em exercício, ao promover de secretaria a Pasta ministerial o setor da burocracia do Estado que trata do assunto.

FOTO: Antonio Melo/Estadão Conteúdo