São Paulo, 28 de Junho de 2017

/ Brasil

Crise interrompe sonho dos universitários da nova classe média
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O investimento na educação era uma das prioridades desse grupo social emergente, mas o desemprego e a queda da massa salarial dificultam o acesso às instituições privadas de ensino

Há 10 anos ocorreu um fenômeno no Brasil com potencial para mudar o desenho de nossa pirâmide social.

Impulsionadas pelo bom desempenho da economia e por políticas públicas, milhares de famílias consideradas pobres ascenderam para camadas superiores. Surgia o que passou a ser chamada a nova classe média.

Eram famílias com renda média per capita entre R$ 354,10 e R$ 1.240,36, que passaram a ter acesso ao mercado de consumo -  estabeleceram um padrão próprio para seus gastos.

Estudos conduzidos para compreender esse comportamento chegaram à interessante conclusão de que a classe média emergente destinava boa parte da renda para a educação.

Ao longo dos anos essa constatação pôde ser mensurada. Um levantamento feito em 2012 pelo Prouni – então o principal crédito universitário do país -, mostrava que essa nova classe média investia 40% mais em educação do que aqueles que já estavam acomodados nessa camada social. 

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Mais da metade das vagas nas universidades privadas passou a ser ocupado por esse público.

Em 2014, um levantamento feito pelo instituto Data Popular apontou que 68% dos jovens da nova classe média já haviam estudado mais que seus pais.

Formavam, em muitos casos, a primeira geração do clã familiar a cursar uma faculdade -símbolo de um projeto transformador.

No topo da pirâmide social, essa era uma realidade para 10% dos jovens.

O publicitário Renato Meirelles, que se especializou em analisar o comportamento dessa população emergente, diz que a educação sempre foi tida por essas pessoas como a escada para escalada das camadas sociais.

Mas essa dinâmica foi duramente interrompida a partir de 2014, com o agravamento da crise econômica que resultou em desemprego massivo e perda da renda.

“A educação continua importante para essas pessoas, mas é uma questão de prioridade. Elas têm de pagar as contas, colocar comida no prato. Ninguém quer ficar inadimplente, então, cortam gastos", diz Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Locomotiva. 

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Um levantamento feito por ele em fevereiro passado concluiu que 29% dos brasileiros irão reduzir os gastos com educação.

Outro estudo, desenvolvido no final de 2016 pelo Ibope, apontava que 14% dos entrevistados iriam tirar o filho de escola particular por causa da crise.

MEIRELLES: ATRASO NA FORMAÇÃO DOS JOVENS DA CLASSE MÉDIA ACARRETA REFLEXOS NEGATIVOS AO PAÍS

Esses dois dados são gerais, não buscaram colocar o foco na nova classe média, mas é evidente que o comportamento identificado é mais comum entre essa camada, composta por indivíduos com menos margem de manobra no orçamento.

O Sindicato das Mantenedoras do Ensino Superior (Semesp) faz um recorte mais preciso. A entidade aponta que entre 2014 e 2015, o número de ingressantes nas universidades privadas pertencentes a classe C diminuiu 8,4%, caindo de 1,8 milhão para 1,7 milhão de alunos.

Segundo Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, as universidades têm oferecido crédito próprio para universitários que estão em dificuldades financeiras, mas não há garantia de continuidade dessa prática.

“No longo prazo isso é inviável, pois comprometeria o capital de giro das empresas, em especial daquelas de pequeno e médio portes”, diz Capelato.

A inadimplência no ensino superior vem crescendo. O Semesp apurou que em 2015, no último levantamento feito, a inadimplência havia aumentado 12,9% na comparação com o ano anterior. 

Entre as mensalidades atrasadas mais de 90 dias, a alta foi de 8,8%, sendo que este percentual cresce para 10,4% quando analisadas apenas as instituições de ensino de pequeno porte.

CAPELATO, DO SEMESP: META DE INCLUIR 33% DOS JOVENS NO ENSINO SUPERIOR ATÉ 2024 ESTÁ COMPROMETIDA

Mais uma vez, não se analisa aqui especificamente a inadimplência da classe média, mas é sensato supor que esta é a camada mais afetada quando esse dado é cruzado com o resultado de uma pesquisa recente da consultoria Tendências.

O levantamento mostra que, entre 2014 e o final deste ano, 3,5 milhões de pessoas que subiram para a classe C devem retornar para as classes D e E.

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À medida que a crise econômica se agravava, o governo passou a adotar medidas de corte de gastos que complicaram ainda mais o acesso da nova classe à educação.

Programas de financiamento para alunos do ensino superior, com o Fies e o Prouni, foram reduzidos gradualmente.

Em 2014, um total de 545 mil alunos ingressaram no ensino superior privado com auxílio do Fies. Esse número caiu quase 50% em 2015, quando 276 mil alunos tiveram acesso ao benefício.

“Na rede privada, o público que procura o Fies vem de escola pública e é da classe C”, diz Capelato.

Para o diretor do Semesp, esse panorama vai impedir que as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que projetava inserir 33% dos jovens no ensino superior até 2024, sejam cumpridas.

A crise econômica cedo ou tarde acaba e a classe média voltará a crescer com novos entrantes. Mas interromper o acesso dessas pessoas à educação deixará cicatrizes, segundo Renato Meirelles.

“Qualquer atraso que se tenha na formação das pessoas terá um reflexo grande para o país mais à frente. De que adianta esperar o crescimento da economia novamente se não vamos ter médicos, engenheiros ou professores formados.”

IMAGEM: Thinkstock



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