Brasil

Cresce o número de assaltos a lojistas na região da nova cracolândia


O alvo são as lojas de acessórios para automóveis na Avenida Duque de Caxias. O temor é tão grande que muitos comerciantes fecham suas lojas antes do anoitecer


  Por Wladimir Miranda 03 de Junho de 2017 às 07:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O cair da tarde serve de sinal para os comerciantes das imediações da Praça Princesa Isabel. É hora de fechar as portas. O lojista que insistir em manter aberto o seu estabelecimento até a noite, corre sérios riscos.

O perigo é real, de ser assaltado, agredido, humilhado. A Avenida Duque de Caxias, especializada em lojas de acessórios de carros, transformou-se em alvo preferencial de usuários de drogas e traficantes.

A reportagem do Diário do Comércio conversou com três comerciantes que foram vítimas de assaltos nos últimos dias. Outros três que foram roubados não quiseram dar entrevistas. O medo de represálias predomina na região.

Os dependentes químicos perambulam pelas imediações da praça enrolados em cobertores. Na rua Aurora –onde há um Distrito Policial -, e nas ruas próximas, é rotineiro observar usuários fumando crack. Engana-se quem pensa que não há policiamento por perto.

Viaturas da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana circulam diariamente pela região. Questionado se nada podia fazer para coibir o uso de droga na rua e à luz do dia, um soldado disse que só pode prender o traficante, não o usuário.

O proprietário da Onyx, loja de peças na Duque de Caxias, contabiliza prejuízo de R$ 1 mil. É o preço do DVD e central de multimídia que foram roubados de sua loja na tarde de quinta-feira (1/06).

“O furto aconteceu quando estávamos aqui. Meus funcionários estavam instalando o aparelho no carro, que estava aberto. Um momento de descuido foi o suficiente para que o aparelho fosse roubado. O sujeito entrou, viu o aparelho em cima do banco e o levou”, relata o comerciante.

Ele disse que não vai comparecer à delegacia para fazer o Boletim de Ocorrência. “Não vou perder meu tempo”, afirma.

O estabelecimento do Douglas, que se recusou a dizer o nome completo, existe há mais de 20 anos, sempre na Avenida Duque de Caxias. Ele afirma que nunca viu tantos assaltos na região.

Antes, os usuários ficavam isolados em área de pouco movimento. Lá, não havia comércio. Agora, eles vagam numa região repleta de estabelecimentos comerciais e imóveis residências.

“A situação é muito complicada. Os usuários de droga descobriram o comércio. Perceberam que aqui é muito fácil entrar, roubar e ir embora. Sem que a PM faça nada”, disse.

Antes, a equipe da Onix trabalhava até as 23 horas instalando aparelhos em carros de clientes que só podiam levar o veículo à loja após o expediente.

“Agora não dá para ficar aqui até tarde da noite. Tenho de fechar as portas às 18 horas”, diz o comerciante, preocupado com o entardecer.

A Guedes e Miranda, outra loja de acessórios de carros, e que fica ao lado da Onyx, também lamenta desfalque financeiro por causa de roubo. Leandro Miranda, o proprietário, que está no endereço desde 1984, aponta para a câmera da loja, que registrou o assalto
que ocorreu ali, também na quinta-feira.

LOJA FECHADA AO CAIR DA TARDE

Miranda contabiliza prejuízo ainda maior. Os assaltantes levaram peças de carros, e uma escada, avaliados em R$ 3 mil. Ele disse que não podia ceder as imagens para o Diário do Comércio porque foram requisitadas pela Polícia Militar, que havia acabado de deixar o estabelecimento.

Indignado com a situação da região, Leandro disse que torce para que o Dia 7 de Setembro chegue logo.

“Neste dia, que comemora a proclamação da Independência, o Exército Brasileiro costuma fazer exibições na Praça Princesa, em homenagem à Duque de Caxias. Aí quero ver se os usuários vão continuar lá”, disse.

Luigi Faria, funcionário da Borracenter, também na Duque de Caxias, olhava assustado para o outro lado da avenida. Na esquina dava para ver soldados da PM revistando dois homens.

“Aqueles dois ali acabaram de me atacar. Eles entraram na loja e me ameaçaram. Como vi que não estavam armados, parti para o confronto. Lutei com eles. Foi quando a viatura da PM estava passando", conta. "Tomara que eles sejam tirados de circulação e que fiquem presos por muito tempo. Caso contrário, posso correr perigo se eles voltarem.”

OPERAÇÃO

A ação para tirar os craqueiros da Alameda Dino Bueno e Rua Helvétia, a antiga cracolândia, foi colocada em prática dia 21 de maio, um domingo. A operação contou com 900 policiais civis e militares e o apoio de fiscais da prefeitura paulistana.

O objetivo era combater o tráfico no local. Na noite do mesmo dia dezenas de usuários de drogas se espalharam por diversos pontos da região central da cidade.

A concentração maior se dá na Praça Princesa Isabel, distante apenas 400 metros da Cracolândia antiga. Comerciantes e moradores das imediações estimam que cerca de 700 usuários e traficantes estão na Praça Princesa Isabel atualmente.

Segundo mapeamento da Guarda Civil Metropolitana, existem 22 pontos de concentração de usuários de crack na cidade. São 340 pessoas espalhadas por outros locais, chegando até a bairros como Santa Cecília, Barra Funda, Santa Ifigênia, além do centro.

Durante a operação,a polícia prendeu 50 pessoas, 48 delas por tráfico de drogas. Também foram apreendidos três adolescentes. Foram recolhidos 12,3 quilos de crack, 6,5 quilos de maconha, 655 gramas de cocaína, 6 gramas de haxixe, 18 gramas de ectasy, 2 micropontos de LSD e  dois litros de lança-perfume.

A prefeitura havia conseguido autorização da Justiça para conduzir compulsoriamente – contra a vontade da pessoa – usuários de drogas da região da cracolândia para avaliação médica.

A autorização, concedida pelo juiz da 7ª Vara da Fazenda Pública, Emilio Migliano Neto, no entanto, foi derrubada pelo desembargador Reinaldo Miluzzi, do Tribunal de Justiça de São Paulo (MP) e da Defensoria Pública. Também foi retirado o segredo de Justiça do processo.

FOTOS: Wladimir Miranda/Diário do Comércio