São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Brasil

Cidade precisa ser saudável, e zoneamento excessivo é desumano
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Quem afirma isso é o médico Paulo Saldiva, ao defender os bairros de uso misto, como o Bixiga. Para ele, ter comércio, emprego e lazer na vizinhança evita doenças e aumenta a expectativa de vida

A revisão participativa da Lei de Zoneamento, responsável pelo parcelamento, uso e ocupação do solo da capital paulista, abre espaço para o debate público. A intenção é que a nova legislação acompanhe a realidade e as necessidades de cada bairro.

Ao contrário do que se parece, o tema não se restringe à opinião de arquitetos e urbanistas, uma vez que a mudança no documento interfere em todos os aspectos da cidade. A saúde é um deles. 

Para Paulo Saldiva, médico e professor titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), do ponto de vista de saúde mental e de qualidade de vida, classificar a cidade de São Paulo em zonas é desumano, pois além de causar estresse, elimina a convivência harmônica, da qual a cidade e seus moradores precisam. 

“Sou a favor de uma cidade em que todas as nossas necessidades ocorram dentro de um espaço em que se consiga chegar dentro de um tempo razoável. Isolar comércio, emprego e moradia não funciona”, diz. “A saúde não se promove apenas na academia, com remédios e com uma alimentação saudável. A cidade, a moradia, e o transporte, também são saúde.”

A afirmação foi feita durante reunião do CPU (Conselho de Política Urbana), da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), coordenada pelo vice-presidente da entidade e coordenador do CPU, Antonio Carlos Pela. O médico falou sobre a instalação de comércio em bairros residenciais, um dos itens mais polêmicos da minuta.

Saldiva citou o bairro do Bixiga (na foto de abertura), na região Central da capital, onde existe o uso misto, e a liberação de comércio na avenida Angélica, em Higienópolis, e na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Europa que, na opinião dele, facilitou a vida da população local.

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“É muito saudável ver as residências, a escola de samba, o comércio e todos os outros equipamentos juntos. E os níveis de incomodidade são dos mais variados possíveis, mas funcionam bem naquele espaço”, diz. “O problema não é comercio, o problema não é residência. O ser humano deveria ser o elemento norteador de todas as políticas públicas.”

SALDIVA: CONGESTIONAMENTOS CAUSAM DOENÇAS/ FOTO: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO

Para Saldiva, São Paulo é vitima de seu próprio desenvolvimento e cabe ao zoneamento eliminar os obstáculos criados para se viver e trabalhar.

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“Congestionamentos provocam doenças e nossa população perde 2h50 por dia em deslocamentos e 5 horas para quem mora na periferia. Assim, perdemos três anos de expectativa de vida.” “E ainda querem levar a moradia para mais longe, e concentrar comércio e emprego em uma só região.”, diz. 

A oportunidade de ter serviços e atividades comerciais no entorno de onde se mora é considerada positiva por Saldiva, pois promove a saúde, melhora a qualidade do ar, aumenta a segurança, e diminui o trânsito. “As pessoas acham que o que causa adensamento de tráfego são os pólos comerciais, e se esquecem da estratégia de mobilidade que adotamos. Ter dependência exclusiva do carro, não é mais o modelo adequado”, diz.

Valter Caldana, arquiteto e urbanista, e diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que, fazer uma lei baseada em atividade é completamente diferente de uma lei para comodidade. “Fazer a lei baseada em listas não é o modelo mais ágil, pois boa parte das zonas tem especificidades temporárias. Definir padrões de incomodidade liberta, enquanto zonas congelam”, diz.

Marcelo Morgado, coordenador do NESA (Núcleo de Estudos Socioambientais) da ASCP, também questionou a validade de inúmeras siglas dentro do zoneamento. “Acredito que pensar no impacto de cada atividade num plano local seja mais eficaz. Uma mesma tipologia de ocupação causa diferentes níveis de incomodidade, e isso depende da característica de cada bairro”, diz. 

*Foto: José Luis da Conceição/ Estadão Conteúdo



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