Brasil

Assaltos, sequestros-relâmpagos e o medo rondam o Butantã, na zona oeste paulistana


O número de roubos de carros, de celulares e de sequestros-relâmpagos cresceu nos últimos anos. É grande a incidência de ocorrências nas proximidades do metrô. Distrital do Butantã da ACSP pediu providências à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo


  Por Wladimir Miranda 24 de Agosto de 2017 às 19:16

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O Butantã está longe de ser o bairro mais violento de São Paulo. Nas estatísticas da Secretaria da Segurança Pública (SSP), está distante de bairros que ostentam, sem nenhum orgulho, o título de campeões da criminalidade.

Entre janeiro a julho passado, aparece na 18ª posição entre os mais violentos e no número de roubos, com 224 ocorrências. Fica na 60ª colocação entre os menos violentos. Quando o assunto é furto, o Butantã é o 32º colocado, com 190 ocorrências.

São números capazes de causar inveja aos moradores do Capão Redondo, Campo Limpo, São Mateus, Itaim Paulista, Parelheiros - só para citar alguns exemplos ilustrativos de regiões que, nas últimas décadas, viraram autênticos cenários de medo e horror.

Embora não seja um campeão da insegurança, o Butantã, na zona oeste paulistana, não tem o que festejar. Como se constata, está muito atrás de bairros que aparecem nas estatísticas da SSP como seguros.

Os Jardins, tido como um dos mais nobres da Capital, surge como o 34º colocado nos estudos feitos pela secretaria, com 161 ocorrências de roubos no mesmo período.

Está também bem atrás da Vila Mariana, bairro de classe média, que, no período, ficou na 69ª posição no ranking da criminalidade, com 78 registros de roubos.

Para avaliar o nível de preocupação dos moradores e comerciantes do Butantã com o aumento da violência no dia a dia, o mais sensato é não se ater muito aos números divulgados pelo órgão que cuida da segurança no Estado de São Paulo.

Basta uma rápida conversa com comerciantes da Avenida Vital Brasil, a mais importante do bairro, para verificar alto nível de tensão.

Os relatos de roubos e furtos nos estabelecimentos comerciais e nas proximidades da estação Butantã do metrô são constantes.

O proprietário da padaria Estrela do Butantã, no bairro desde 1964, pertence à segunda geração da família que fundou o estabelecimento, em 1953, reluta em falar sobre a questão da segurança.

A região da Avenida Vital Brasil passou por várias transformações desde 1953, quando a padaria foi inaugurada. A última, e mais importante das mudanças para os seus mais de 50 mil habitantes, chegou dia 28 de março de 2011, com a inauguração da estação do metrô.

O novo meio de transporte trouxe inúmeros benefícios, mas também virou sinônimo de preocupação para os moradores e comerciantes locais.

O movimento em frente à Estrela do Butantã é intenso. Centenas de pessoas entram e saem do metrô. Nas ruas paralelas à avenida, onde se concentra a maioria das lojas comerciais e agências bancárias, não existe policiamento.

De manhã e no final de tarde aumenta e muito o fluxo de usuários do metrô por ali. O comerciante reconhece que houve benefícios para o comércio e os habitantes do bairro com a chegada do metrô. “O metrô trouxe coisas boas e ruins. Infelizmente, nos últimos meses, as ruins superaram as boas”, diz ele.

Um dos aspectos positivos trazidos pelo aumento da circulação de pessoas foi o crescimento do consumo nos estabelecimentos comerciais do bairro.

“O ruim é que aumentou o número de assaltos na região. Aqui dentro também ocorrem furtos. Mas o que nos assusta são os assaltos que acontecem na calçada em frente à padaria", afirma. "Tememos que os assaltantes invadam o estabelecimento. Os assaltos são frequentes. O alvo principal são os celulares. Mas também furtam carros.”

A conversa é interrompida por um cliente, Jorge. Conta que já foi vítima de assalto nas imediações da padaria. “Fui abordado logo aí em frente por dois homens, que encostaram o revólver no meu peito e levaram meu celular”, afirma.

Do outro lado da Vital Brasil, a dona do estabelecimento Tamoio, Ferragens, Ferramentas, Artigos Elétricos e Hidráulicos, também mostra indignação com a insegurança.

“Os assaltos a celulares em frente à loja são frequentes. A violência aqui aumentou muito nos últimos meses”, diz uma pedestre.

O medo de que denúncias contra a falta de segurança no bairro possam provocar represálias também fica evidente no Supermercado Padrão, na mesma avenida.

CONTRASTES

O Butantã é um exemplo de contrastes socioeconômicos. Faz divisa com os distritos de Pinheiros, Alto de Pinheiros, Jaguaré, Morumbi, Vila Sônia, Rio Pequeno e Raposo Tavares.

É delimitado a leste pela margem do Rio Pinheiros.  Bem próximo ao rio, está localizado o City Butantã, bairro-jardim de alto padrão. Semelhante a bairros como os jardins América e Europa, que ficam do outro lado do Rio Pinheiros.

Há ainda os bairros eminentemente residenciais como Vila Indiana, Conjunto Residencial Butantã, também chamado de inocoop, Previdência, Vila Gomes e Jardim Bonfiglioli.

A Rodovia Raposo Tavares corta o bairro em seus quilômetros iniciais. Destaques do bairro também são a Cidade Universitária, sede da Universidade de São Paulo – USP - e o Instituto Butantã.

 
RICARDO GRANJA, DIRETOR DA DISTRITAL SUDOESTE
GRANJA: APELO POR SEGURANÇA

O crescimento da violência na região também preocupa Ricardo Granja, diretor superintendente da Distrital Sudoeste da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Após colher depoimentos de moradores e comerciantes locais, Granja se encontrou com Mágino Alves Barbosa Filho, secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, para pedir providências.

No encontro, o diretor da Distrital Sudoeste levou um documento com sugestões para o combate à violência, a ampliação do policiamento nos bairros da região, o atendimento preventivo, com rapidez e cortesia, e patrulhamento móvel em locais vulneráveis, como a proximidade da estação do metrô Butantã, e nas avenidas Eliseu de Almeida, Professor Francisco Morato e Vital Brasil.

Questionada pelo Diário do Comércio a respeito da situação, a Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que reforçou o patrulhamento na região do Butantã. Colocou em funcionamento a operação "endurance", que consiste na intensificação das rondas.
 
"Diariamente são realizadas ações de prevenção e abordagem de pessoas e veículos com equipes de Radiopatrulhamento, com apoio da Rocam - agentes em motocicletas -, Força Tática e com Base Comunitária Móvel".
 
Segundo a secretaria, a polícia civil deteve recentemente um autor de roubos na região e que vítimas de outras ocorrências estão sendo orientadas a comparecer ao 51º DP, do Butantã, para verificar se ele também foi responsável por outros crimes cometidos no bairro. 

Além do Butantã, a região inclui os bairros Vila Gomes, Jaguaré, Caxingui, Raposo Tavares, Morumbi e Real Parque. Na avaliação do dirigente da ACSP, nestes sete bairros residem atualmente mais de 400 mil pessoas.

“Claro que os assaltos com o objetivo de roubar celulares e carros são os mais comuns nestes bairros. Mas os moradores e comerciantes também são vítimas de sequestros relâmpago e furtos em geral”, diz Granja.

O forte da economia da região é o comércio. Mas também é conhecida por abrigar instituições importantes de ensino do país como a USP, Anhembi Morumbi, São Judas e a Universidade do Estado de São Paulo, a Uniesp.


 
PM É MORTO NO BUTANTÃ
PM QUE REAGIU A ASSALTO FOI MORTO NO BUTANTÃ

Na sexta-feira (18/08), a própria polícia foi vitimada pela violência no Butantã. Um PM à paisana reagiu a assalto, matou um bandido e feriu um segundo.

Estava em horário de folga, acompanhado da mulher e dos dois filhos pequenos, quando foi abordado, no início da noite.

Os dois criminosos chegaram de moto, e o garupa apontou uma arma para o motorista do Chevrolet Spin que estava parado em frente à estação do metrô, sem saber que a vítima era um militar.

Rapidamente, o policial reagiu, sacando a pistola que carregava consigo e trocando tiros com os assaltantes. No confronto, os suspeitos acabaram baleados, e um deles morreu no local, antes da chegada das equipes de resgate. O outro foi encaminhado pelos bombeiros para o Hospital Universitário.

*Com Estadão Conteúdo

FOTOS: Hélio Torchi/Sigmapress/Estadão Conteúdo e Marcos Santos/USP Imagens/Creative Commons