São Paulo, 24 de Março de 2017

/ Brasil

Após narcotráfico, Padilha filma o mecanismo da corrupção
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Cineasta prepara série sobre a operação Lava Jato, desencadeada em Curitiba contra sangria nos contratos da Petrobras. Ele acredita que a corrupção é hoje cultural no Brasil

José Padilha é um personagem singular no cenário político e  cultural brasileiro. O cineasta, de 49 anos, é também um militante que circula em esferas situadas bem acima das gaiolas que aprisionam o pensamento da arte partidarizado.

Autor de Ônibus 171 (2002), dos dois Tropa de Elite (2007 e 2010), que discorrem sobre o melhor contingente da Polícia Militar fluminense, ele passou, a partir de Narcos (2015), sobre o narcotráfico na Colômbia, a dirigir séries para os 93 milhões de assinantes do Netflix

É também para esses assinantes que Padilha prepara para 2017 uma nova série, desta vez sobre a operção Lava Jato.

O projeto o obriga a mergulhar na confluência de duas correntes, a da política e a da corrupção, que correm caudalosas desde o período colonial. 

O cineasta poderia elaborar uma concepção ensimesmada sobre o papel da Lava Jato. Ele a discutiria com amigos ou, então, elaboraria análises simplificadas para divulgação para a mídia.

Mas ele é bem mais requintado. Montou em 27 tópicos uma espécie de manifesto que condensa suas ideias sobre as barbaridades descobertas em Curitiba, pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Judiciário.

Esse documento (leia aqui), que Padilha publicou em O Globo (12/02), não vê a corrupção como uma sequência de episódios autônomos, eventuais ou secundários. 

Para ele, a corrupção é o produto de uma relação constante e constitutiva entre as instituições do Estado – a União, as Unidades da Federação e os municípios - e as empresas que executam obras ou prestam serviços.

É o que ele designa, sinteticamente, com uma palavra: mecanismo.

Como é, então, que o mecanismo passou a ser investigado e punido, quebrando a regra do sigilo pelo qual o malfeito, para quem ingenuamente observa de fora o Legislativo e a administração pública, aparece sob a imagem de rotina? 

A Lava Jato, diz Padilha no tópico número 22 de seu documento, só foi possível em razão de uma "conjunção improvável de fatores"

a) um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômoca que causou,

b) uma bobeada do Parlamento, que não perebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era inompatível com o mecanismo, e

c) o fato de uma investigação potencialmente explosiva cair nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes rígida, competente e com bastante sorte.

O que é rigorosamente verdade. Dilma Rousseff não vetou uma emenda à Medida Provisória que trouxe como penduricalho a delação premiada -mecanismo que poderia, a partir de 2005, ter levado bem mais longe a investigação judicial do Mensalão.

E é igualmente verdade que, em razão de um Executivo enfraquecido e na defensiva, o Judiciário – do Supremo Tribunal Federal a Sérgio Moro– avançaram sobre um espaço do qual o establishment petista recuou.

A CORRUPÇÃO É NO BRASIL CULTURAL?

Há, no entanto, um ponto que merece discussão. Padilha não usa a palavra "cultura" . Mas ele indica de maneira forte, embora implícita, de que o país mergulhou na cultura da corrupção.

Pouco importa - o que ele também não discute - se quem veio primeiro foi o ovo (os políticos corruptos) ou a galinha (as empreiteiras corruptoras).

Essa concepção cultural da propina ou do caixa-dois é bem mais uma pergunta que uma explicação. Cultura é algo com o qual lidam, academicamente, os antropólogos e os etnólogos. 

Eles registram, por exemplo, que no Brasil fazem parte da cultura a língua portuguesa, o consumo do arroz com feijão, uma apetência generalizada à música em seus diversos gêneros locais, ou – segundo Aurélio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil – a prevalência do "homem cordia"l, que não é aquele marcado pela gentileza como sinônimo possível de cordialidade, mas sim aquele para quem as normas do grupo e do compatrio valem mais que o direito positivo, como o Código Comercial.

Digamos que a corrupção seja previsível num ambiente em que há um número maior dos que pretendem chegar ao poder, e um número infinitamente menor de cargos eletivos que as instituições colocam à disposição.

Mas previsibilidade não é um sinônimo de fator cultural. Se eu for detentor de um projeto político compartilhado pela maioria dos cidadãos que eu pretendo que votem em mim – digamos, o projeto de democracia, pós-1985, ou o projeto de limitação das desigualdades sociais, que esteve por detrás da redação da Constituição de 1988 -, pois bem, será o comparbilhamento de valores, e não a corrupção, que permitirá que eu seja eleito.

PROPINA E CAIXA ELEITORAL

Padilha tem empiricamente razão ao constatar que políticos honestos têm mais dificuldades para sobreviver que os políticos desonestos, cuja visibilidade eleitoral (leia-se, custos de campanha) é favorecida pelas empreiteiras.

Mas a aversão a essa forma de financiamento tem ao menos dois precedentes eloquentes na recente história republicana.

Em 1987, o PSDB foi uma dissidência do PMDB paulista, controlado na época pelo governador Oresttes Quércia, cuja reputação estava abaixo do desejável em termos republicanos.

No campo da esquerda, o Psol saiu como vértebra do organismo do Partido dos Trabalhadores por um processo semelhante, a partir a crise que a comunidade petista atravessou por causa do Mensalão.

Mas, por trás desses exemplos, José Padilha lança – no manifesto e certamente também nos episódios da série que começará a filmar – o alerta sobre os riscos que a Lava Jato continua a correr. 

Aqueles que se enxergam como vítimas atuais ou futuras farão de tudo para conter seu ímpeto investigativo, aliás segundo o precedente da operação Mãos Limpas, na Itália. 

E se a manobra for bem-sucedida, quem triunfará será essa máquina trituradora da eficiência, da ética e do equilíbrio fiscal que Padilha chamou de "mecanismo".

FOTO: Divulgação