Brasil

A fé e a falta dela no retrato do Brasil de Michel Temer


Forma de conhecimento que dispensa a razão, ela é um componente político que moveu o trabalhismo de Getúlio, o desenvolvimentismo de JK e a modernização do Estado de FHC


  Por João Batista Natali 02 de Junho de 2017 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Michel Temer nunca despertou propriamente o sentimento de fé entre os brasileiros.

Havia, no máximo, a ideia quase despersonalizada de que o país entraria num período virtuoso após a queda de Dilma Rousseff.

A fé é um componente importante na política. A Proclamação da República (1898) e o governo Juscelino Kubitschek (1956-1960) geraram a fé na modernização das instituições e da economia industrial.

Getúlio Vargas (1930-1945) gerou a fé da inserção na vida pública de uma nova massa de trabalhadores urbanos.

Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) gerou a fé na modernização do Estado, eLuiz Inácio Lula da Silva (2003-20010), para seus partidários, trabalhou com a fé da diminuição das desigualdades.

Esse conjunto de lideranças não cumpriu necessariamente aquilo que propunha. Mas a sociedade acreditava –tinha fé – de que se trilhava o caminho rumo a esses objetivos diversos.

Temer levantou a bandeira das reformas e da moralização das empresas estatais. Empacou no meio do caminho, com as crises que a Lava Jato gerou em sua equipe e que hoje comprometem seu mandato.

Neste início de junho, o país não está apenas inseguro quanto ao desfecho da atual tempestade política. Está sobretudo desprovido de fé com relação a seu próprio destino imediato.

É bom votar para presidente? Claro que sim. A oposição embarca nessa certeza difusa para propor diretas-já, apostando na fé que as diretas evocam para dar legitimidade às decisões do Executivo, por mais que implique contornar a Constituição e favorecer a candidatura de Lula.

Mas é uma fé empobrecida pela sua imediata circunstância. Eleições diretas ocorrerão dentro de 17 meses -e até lá os cenários podem ser bem outros.

AS RAÍZES HISTÓRICAS

Fé é quase tudo. Ela existe na relação o torcedor com seu time de futebol, do eleitor com seu partido político, do consumidor com determinada marca de produto.

Para os historiadores das mentalidades, a fé é uma forma de conhecimento que não leva necessariamente em conta a razão.

Não é racionalmente que se tem fé em Deus, que não é objeto de uma demonstração palpável. É assim desde que a fé nasceu com o monoteísmo do patriarca Abraão (2º milênio AC).

Em termos religiosos, a fé cresceu com o judaísmo, sistematizado por Moisés Maimônides (1138-1204). E também entre os muçulmanos, com o profeta Maomé (570-632).

E tem uma longa história no cristianismo, com os concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (391), com São Paulo, um rabino convertido, ou com santo Agostinho ou Tomás de Aquino.

Nem sempre a fé nos conduz na direção correta. Basta lembrar a visão geocêntrica do universo – a Terra como o planeta em torno do qual tudo mais giraria em órbita – com base em interpretações sectárias das escrituras.

A verdade estava com Copérnico, Galileu e Giordano Bruno (séculos 15 a 17), que ousaram desafiar os teólogos que inspiravam a inquisição. Bruno foi condenado à fogueira e queimado em 1600.

Outro tipo de confusão surgiu com Charles Darwin (1809-1882) e a teoria da evolução das espécies, que trombava com a fé de que o homem fora criado de uma só vez, à imagem e semelhança de Deus.

Hostilizado por teólogos, o pai da biologia moderna só foi formalmente reconhecido pelo Vaticano apenas com João Paulo 2º, em sua encíclica Fé e Razão (1998), por mais que nos 100 anos anteriores o cristianismo se reconciliasse informalmente com essa forma antes escandalosa de explicar a origem do homem.

A FÉ PODE SER MODERNA?

Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1920) foi quem formulou de maneira mais radicalmente original a relação entre a fé e a economia.

No final do século 18, disse ele, regiões da Alemanha em que prevaleciam valores protestantes foram as primeiras a darem o salto do artesanato das corporações para o modelo fabril moderno.

Esses capitalistas se abasteciam na ideia do trabalho individual como forma de geração de riquezas. A fé no trabalho era, então, central para compreender o núcleo desse longo processo.

Na mesma Alemanha e na mesma época, os católicos buscavam prioritariamente cargos dentro do Estado, da burocracia à rede de ensino.

É curiosa a analogia atual, mesmo imperfeita, entre a fé no trabalho e a fé no Estado. O Estado como provedor de direitos – ideia hoje predominante das esquerdas – se contrapõe à ideia central do mercado como gerador de riquezas.

São duas formas de fé que coabitam na sociedade brasileira. E que se manifestam em temas tão controvertidos quanto a reforma da Previdência.

Os partidários do Estado temem que ela “retire direitos”, enquanto os partidários da racionalidade econômica apostam nos efeitos que a reforma terá no equilíbrio fiscal e no aumento da capacidade de investimento do Estado.

São basicamente, então, duas fés que montam, cada uma a seu lado, um forte eixo do antagonismo político.

O curioso, no entanto, é que os que têm fé nos efeitos da modernização da Previdência não tenham, com a mesma intensidade, fé no presidente Michel Temer.

Temer não é apenas fraco por ser pouco carismático. Ele é fraco por não ser objeto de alguma forma de fé que seja compartilhada por grupos partidários, corporativos ou acadêmicos.

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